quarta-feira, 30 de março de 2011

ASF (crônicas)

Acabei de decidir que toda quarta eu vou postar alguma coisa no blog (não reparem, eu tenho mania de organizar meus horários e dias da semana... momento TOC!). Bem, dessa vez é mais uma crônica que faz uma alusão no final à fraqueza da religião, como somos nós mesmos quem criamos as divindades e num simples ato sóbrio podemos acabar com elas. Espero que gostem e sorry por ele ser meio longo!


Formigas

  A rua vazia acabava a uns cem metros dali, antes de entregar-se à floresta. Com seus pinheiros tortos, gramado cortante, flores ofegantes e algumas poucas cigarras, era realmente notável que o pequeno menino pisasse com tanta firmeza. Aqueles olhos claros se perdiam em algum lugar do crepúsculo, fundindo-se ao céu cansado que de mal grado dava lugar às estrelas. O horizonte preguiçoso estendia-se por toda a escarpa e fazia de cada passo um movimento insondável no nada, como se mesmo seus maiores esforços para chegar ao outro lado, quando alcançados, fossem consumidos pela amplidão do interminável, dos arvoredos que se estenderiam para além-ver. O garoto era assim, um ponto simpático na natureza, mas de uma pequenez tão aguçada quanto de uma formiga operária diante da rainha. Era fofo e achatado para os lados, traços que eram fortemente acentuados pelo pescoço curto e as bochechas roliças. Tinha nas mãos aquele cheiro de mogno e poeira, o mesmo da mesa do porão.
Francisco era realmente diminuto com todos os seus hábitos estranhos e estúpidos, gostava de colecionar formigas de todas as espécies, desde as pequenas rechonchudas até as alongadas cor-de-fogo, gostava acima de tudo da forma como as formigas interagiam entre si, como seguiam cegamente a um líder e temiam solitariamente as chuvas. E ele se sentia como elas, obediente e temeroso, cego e solitário.  O pequeno devia ter os seus sete anos, mas já cultivava hábitos de adulto, tinha a mania de pensar muito e de na maior parte das vezes não fazer nada, como se seus pequenos problemas de fato demandassem grande energia e esforço psicológico para serem resolvidos. Mas tudo isso era agora indiferente, suas manias, seus hábitos e suas origens eram invisíveis na trilha solitária. E ele sentia-se vivamente único, como se toda a floresta estivesse ali para dar-lhe passagem, como se Deus tivesse gastado uma força tremenda para criar aquela biosfera, agora unicamente explorada por ele, Francisco, o jovem Adão de todos os homens.
  Esses pensamentos soariam estranhos e vagos se ditos em voz alta e por isso ele fechava os olhos quando estes o invadiam, esperando que a escuridão desse mais clareza e sigilo a todas as suas palavras. E assim, entre o acordado e o sonâmbulo, Francisco continuava seu caminho pelas araucárias até a igreja. Ia devagar, com passos entrecortados e leves, e só quando os pensamentos assumiam novas dimensões avassaladoras, ele desviava, pisava pesado e rígido, como que para acordar de um delírio e com orgulho esperava silenciosamente até que o calafrio atingisse-lhe o crânio e depois saísse lentamente pressionando as hérnias e a espinha.
  Toda a caminhada não demorava mais de meia hora e logo ele encontrava-se na igreja. Era fácil de perceber quando seu destino se aproximava, graças ao cheiro forte de perfume feminino e as conversas meio que gritadas em clamor e abafadas pela umidade do ar, que tornavam-se cada vez mais intensas e opressoras em seus ouvidos. Nesse momento o pequeno abria os olhos, pois sabia que seria falta de respeito apresentar-se como sonâmbulo para toda a pequena comunidade católica de Borá.
  Os rostos lhe eram conhecidos, todas pessoas do bairro e que moravam ali desde sempre. A menina das laranjas, o pescador recluso, a mãe de cinco crianças, o rapaz que se mudaria para São Paulo, a moça que era muito bonita e o menino que parecia retardado. Amontoados, todos esperavam unicamente a presença do pastor no altar para entrarem furtivamente no reino de Deus, ou era assim que ele preferia chamar.
 Francisco era muito religioso e sempre teve em mente que seria um discípulo e mais um dos co-autores da Bíblia, vez ou outra perguntara isso para a sua mãe, se tinha algum tipo de faculdade para os futuros representantes de Deus, pergunta que ela respondia sempre com um sorriso raso e um “ Volte a brincar nas macieiras, meu filho”.  Essa era uma das poucas coisas que o indignava: a obstinação de sua família.
  As pessoas começaram a agitar-se, o pastor havia chegado e já estava na porta da igreja cumprimentando os irmãos. Francisco apressou-se por entre a microscópica multidão e infiltrou-se antes de todos no corredor. Buscou sua cadeira na extrema ponta direita e ficou ali até que a missa e o sermão começassem, ignorando os outros que lentamente acomodavam-se nos bancos. As portas foram fechadas e um silêncio automático tomou conta do altar. Os passos do pastor agora soavam altos e prendiam a atenção de todos os presentes graças à inquieta magnitude de seu eco. Seguiu até o final do corredor e deu início às preces de rotina. Um pequeno coral acomodou-se atrás dele e puxou o canto dos fiéis. Depois se deu início ao sermão do dia, uma citação do livro Apocalipse e toda uma corrente de perguntas e pensamentos foi levantada pelo pastor, que quando queria causar maior impacto na platéia, elevava sua voz ao tom mais agudo, quase estridente e segurava de forma agressiva ora a bata, ora a Bíblia.
  Mas por algum motivo, Francisco não conseguia prestar atenção, não que ele não compreendesse os vocábulos ou até mesmo o teor de todo o sermão, mas sim porque de alguma forma estranha, ele sentia-se como num trem, onde todas as palavras do pastor não passavam de arvoredos ou casas que se moviam apressados e indistinguíveis em sua frente, e que depois de uma longa viagem só restavam como vultos fugazes e irrelevantes dentro de si.
  Isolado ali no extremo direito, Francisco esforçou-se para olhar pra trás e lentamente fixou o olhar em cada um dos rostos resignados dos moradores. O menino adquirira agora, como uma flor brotada na adversidade, uma percepção de mundo inteiramente nova. Aquelas pessoas não passavam de minúsculas formigas, temerosas e obedientes, esperavam da formiga-rainha um tipo de perdão e misericórdia pela oferenda, pelos incansáveis esforços que lhe custavam a vida. Com a pequena diferença que a sua rainha era divina, imortal e nunca tinha sido vista. Sua rainha era Deus, que forçava-lhe a fazer certos sacrifícios imaginários e oferendas ao impalpável.
Por um segundo toda a religião pareceu-lhe tola e fraca. Com um movimento cansado, olhou para baixo: bem sobre seus pés, a cerca de dez centímetros dali, estendia-se uma fina corrente de formigas anãs.  Engraçado! Olhou-as com o desdém de quem descobre dentro de si uma verdade absolutamente nova e potente, e esmagou com os pés descalços uma a uma. Levantou do banco e saiu da igreja com uma única pergunta que não queria calar: quem seria ele diante da grande formiga-rainha?  

VSP - refletindo

Não me surgem palavras à mente para descrever meus míseros sentimentos. Sentimentos estes obscuros, de difícil compreensão. E no entanto, talvez exista uma saída mais fácil do que a aparente. Mas nem sempre a mais fácil é a que nos trará mais benefícios.
No momento de uma decisão, quem garante que haja uma saída fácil? Qualquer decisão tem pedras no meio do caminho, porém também sempre tem suas flores. E que vida seria essa sem as flores? Seria mesmo vida? Ou seria somente sofrimento após sofrimento?
A vida é feita de escolhas, e estaremos sempre a elas condicionados até que haja um fim e outro novo começo, outra nova vida; e o mesmo se sucederá então: estaremos sempre obstinados a escolher entre um caminho e outro. E sempre teremos a consciência de que toda pequena decisão tomada mudará de alguma maneira ou de outra o rumo de nossas vidas. E nem todos os caminhos oferecem passagem de volta.
Nos cabe somente escolher então algum caminho, muitas vezes de olhos vendados, sem poder ver quantas pedras e quantas flores existem pela frente.
Lembremo-nos sempre de viver o momento, e deixar o futuro para os apressados.

A escolha que fiz ao seguir este caminho com este grupo foi definitivamente uma das melhores decisões que já tomei. Obrigada a todos vocês por fazerem de minhas sextas-feiras dias melhores, e me deixarem com a irrefutável consciência de que sextas melhores virão.

terça-feira, 29 de março de 2011

LHM (surto)

Loosing my memory
Eu não lembro mais do que se passou. Não penso mais no que aconteceu, no que poderia ter acontecido e nem porque acabou. Parece que não tinha esquecido completamente de como é a dor, e posso dizer que me acostumei com ela.
Parte de mim bloqueou todas as mentiras e deu um jeito de pular o buraco aberto em meu peito todos os dias de manhã, assim como evitá-lo durante o dia. Eu não quero mais sofrer, não quero mais lembrar de nada. E fingir que está tudo bem já se tornou um hábito - consigo convencer até a mim mesma disso. Mas como sempre, não se pode segurar uma máscara por muito tempo, nem esperar que ela se mantenha no lugar quando suas mãos se cansarem.
Às vezes, à noite, ainda lembro das conversas, dos passeios, dos filmes, das discussões, dos entendimentos e das palavras (falsas) que vinham à tona quando tudo se resolvia. E me deparo com uma velha e conhecida amiga que toma conta de meu corpo, me deixando incapaz de reagir, ou pensar em outra coisa - fico presa à essa dor quase insuportável até adormecer, esperando que o dia seguinte seja melhor.
Eu estou sobrevivendo. Eu sei disso. O mundo não vai acabar em 2011- ainda tenho um ano pela frente. =P

domingo, 27 de março de 2011

ASF (poesia)

Mais um poema de domingo! Estudar para as unificadas já estava me dando nos nervos, então decidi parar mais cedo hoje e escrever um pouco! Espero que gostem. XD



Imperativos existenciais

Dança menina, dança
Baila, pois não há mais chagas no mundo do que bailar
E não há mais mundos na chaga do que meninas

Vive criança, vive
Sobrevive, enquanto o peso de existir ainda é leve
Existe porquanto a vida ainda transpassa inquieta

Brinca garoto, brinca
Graceja num mundo que ainda é infância
Espairece contente em uma realidade parca

Sonha menina, sonha
Fantasia, pois não há mais fantasias no mundo do que amigos
E não há mais mundos nas fantasias do que teus sonhos

Sorria criança, sorria
Anima-se, enquanto a vida desconhece a lágrima
Chora porquanto o pranto não procede ao tormento

Cala garoto, cala
Abstende-se num mundo sem propósitos
Admira as palavras quando ainda míopes

Ama menina, ama
Apaixona-se, pois não há mais afeições no mundo do que meninos
E não há mais mundos nos homens do que paixões falsas

Por fim, cresça criança, cresça
Amadurece, enquanto teu futuro não é padecer
E padece porquanto a infância tornou-se finita

quinta-feira, 24 de março de 2011

Silêncio - Clarice Lispector

Este é aquele primeiro texto que nosso querido tutor/mentor nos deu para ler, e eu pessoalmente adorei.

SILÊNCIO

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas de perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é par ao ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largaamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

quarta-feira, 23 de março de 2011

ASF (crônicas)

Mais um texto que me veio à cabeça, nas minhas caminhadas solitárias na Paulista, hehe! Espero que gostem.

A praça e o céu

  No cruzamento da grande avenida e da modesta rua residia uma praça misteriosa e rasgada pelos contornos do lago. A pequena passaria despercebida diante da gloriosa vastidão da cidade. Seus traços verdes diminutos e outrora amplos, agora se comprimiam em um terreno de trezentos metros quadrados e até mesmo o belíssimo lago dava espaço à civilização. Passavam naquela esquina diariamente milhares de pessoas pobres, ricas, apressadas, bonitas, artistas e crianças. Mas a praça não ligava, não ligava pois era velha, dura como concreto e sabida. Conhecia a cidade em seus mínimos detalhes e os habitantes em todos os seus pormenores. Conhecia as jovens atraentes pelo som escandaloso da voz; os velhos bêbados pelo eco líquido e despreocupado dos pés; os homens de negócio pelo desespero irremediável e a pressa irritante das pernas, e as crianças pelo odor da curiosidade. E por serem os homens tão óbvios e padronizados, a praça nunca dera grande importância a eles. Gostava mais era do céu infindo que se estendia por sobre as copas de suas árvores, agora simetricamente podadas, e que assumia sempre uma feição nova. O céu não tinha padrões, não passava de conglomerados de água ora grossos, ora finos, que esculpidos pelo vento deram início ao que o homem chamou de fantasia. Como podiam filamentos tão leves e frágeis de vapor sustentarem as estrelas e encobrirem os maiores astros? Isso ela nunca entendera. Mas tinha uma imensa vontade de pertencer a ele, de reduzir-se a pó para secretamente elevar-se àquele gigante.
  Mas uma praça tinha seus humildes deveres para com a humanidade, tinha de estar sempre bonita e forte, de exibir os mais extravagantes jardins e cortejar os mais vistosos animais. E mesmo sem nenhuma vaidade a praça seguira desde sempre sua servil atividade e em troca, como uma boa escrava, recebia em seus cantos mais escuros, próximo aos matos mais úmidos, o deleite dos amantes. Gostava dessa parte da espécie humana, pois achava que depois dos céus, era o amor o maior autor das fantasias. E fazia questão de silenciar suas árvores, calar os animais e reduzir os barulhos da cidade a pequenos zunidos inaudíveis, quando um casal aproximava-se de seus bancos.
  O encontro era mesmo uma coisa linda, como água e estática formavam as nuvens, a essência dos céus; o homem e a mulher quando juntos davam vida à paixão, à essência da terra. Sorrisos, roçar de lábios, palavras tímidas e olhares ousados eram apenas o plano de fundo do encontro, cuja natureza magistral da praça era platéia. A finalidade do encontro não era o sexo, o beijo ou o ombro amado, mas sim a presença, as semelhanças e o aconchego; era o reconhecimento do final da solidão, da existência da alma fora de si mesmo, onde o sexo, o beijo e o ombro não passavam de necessidades fisiológicas e mesquinhas de se orgulhar da maior de todas as conquistas: o amor.
  E a praça queria ser assim, queria poder ter necessidades fisiológicas e alma, mas não as tinha. Ficava triste e murcha e mesmo as mais formosas chuvas não saciavam sua sede. O asfalto ia perdendo seu brilho, as plantas curvando-se em direção ao chão e de repente via-se aquela pequena, agora vulnerável e chorosa, fechada dentro de si.
  Mas dizem que a Mãe Natureza é sábia, e se não o for é no mínimo sensível. E foi numa noite quente, dessas de primavera tropical, que aconteceu para a praça o maior de todos os milagres. Naquele mesmo agitado quarteirão um prédio pegou fogo e lentamente espalhou todas as suas voluptuosas faíscas no ar da avenida. Agora se esticando e agitando-se incansavelmente para as alturas, a pequena praça tentava atingir mesmo o menor vestígio de fogo restante. Queria ultrapassar seus próprios limites e atirar-se ao prédio num desejo insaciável de suicídio, mas a humilde praça não tinha braços, nem pernas e muito menos alma. E por isso devia saciar-se com a vontade do vento, fosse qual fosse o destino que este a reservasse. Mas o vento foi naquela noite generoso e trouxe levemente em seu corpo invisível uma faísca fina de fogo, grande o suficiente para incendiar a primeira folha, depois a primeira árvore e logo todo o corpo da pequena praça ardia em chamas vermelhas, alaranjadas e fumarentas.
  No final do espetáculo restou da humilde praça da avenida apenas uma poeira escura e orgânica, sem forma nem peso e que lentamente elevou-se aos céus para juntar-se às estrelas. A praça teria finalmente o seu primeiro encontro. 

segunda-feira, 21 de março de 2011

ASF (poesia)

Eu não queria dizer nada de tão especial com esse poema, mas já que ontem à noite ele me veio espontaneamente na cabeça, decidi colocar no blog e compartilhar com todo mundo, até pra ver se vocês também começam a colocar tudo que vier na cabeça de vocês no nosso site! XD
Beijos Turminha e espero que gostem!
OBS: O poema é meio viajado ok? hehe Faz muito tempo que eu não escrevo uma poesia, então... tenso!



Substância aguada
Me dói ver cada flor despedaçada
Cada pétala ruir no assoalho asperso
Desfazer-se na profundeza aguada do nada
Para recompor-se na finura de teu quadril espesso

Se cada lírio que colhe da noite negra
É brilho insondável
Queria eu dar-te a terra íntegra
Para iluminar este sorriso impalpável

Se foste líquida como um poema
E intacta como a substância
Queria captar-lhe como se capta uma rima
E consumir-lhe como se consome a própria matéria

Me dói ver em cada flor desamparada
Súplicas pétalas morrediças
Semi-nuas, vibrantes víboras consternadas
Consumidas em fogo pela tua balada

Ah! Se cada lírio colhesse teu brilho insondável
Se foste líquida como uma pétala
E morrediça como uma rima
Então não passaria de substância aguada
Dispersa no fogo de uma balada
Pronta para ser consumida por meu poema!

domingo, 20 de março de 2011

ASF (crônicas)

 Vai aqui uma crônica que eu escrevi sobre a força da morte. Espero que gostem!
A caminhada
 A noite derrubava uma brisa fria na encosta e insistia em levantar milhares de vezes a base de linho de sua camisa. Um pouco encabulado você seguia em frente, sem se importar com o roçar dos pés na areia ou até mesmo com o arrepiar dos braços nus ao vento. Fizera sempre aquele percurso à beira-mar por força do hábito ou até mesmo da comodidade. Suas pernas conheciam o caminho e durante dez anos ele não mudara. As mesmas ondas curtas e fracas quebrando nas falésias, as mesmas conchas descoloridas boiando na maré e o mesmo silêncio inquieto do oceano. Você amava aquela praia e não porque tivesse qualquer tipo de casebre ou taberna que pudesse lhe abrigar nas horas de desgosto; na verdade você tinha uma certa aversão ao álcool, pois ele tornava todos os movimentos mais moles e todas as palavras mais vazias. Uma vez ou outra, quando queria atrair uma mulher, dava-se ao luxo de uma dose de rum ou licor, pois sabia que todo homem é mais atraente quando tolo. Mas na realidade você não era nada atraente. Seus olhos indevidamente espaçados, a boca enrugada e torta abaixo do nariz, os dentes podres e pequenos entre os lábios, vez ou outra chegavam a machucar-lhe a língua e até mesmo sua sobrancelha parecia retrair-se para dentro da pele. Comparado a qualquer outro homem, sua aparência era grotesca e o cabelo anoso e suado dava um ar de selvageria a toda a obra. Você não passava de um homúnculo hostil e retraído, um daqueles seres que não tem mulheres e vivem para a imoralidade da noite.
 Mas então porque seguira tão quieto durante dez anos aquele mesmo caminho? Sem casa, pousada ou família não fazia sentido você ter um destino. E de longe eu te observava. Na verdade, eu gostava da forma corcunda e desajeitada como tentava incansavelmente ajeitar a camisa e os bolsos, do modo relutante como desejava simplesmente a inexistência.  Encolhendo-se toda vez que a água tocava-lhe os pés frios, você tinha a estranha mania de desviar do desenho das ondas e de circundar todo o obstáculo em seu caminho. Era engraçada, e ao mesmo tempo hostil, a forma como seguia metodicamente os seus hábitos como um rio segue fiel o seu curso.  O melhor horário para observar-lhe era por volta das onze, quando o reflexo da lua no oceano denunciava os contornos esdrúxulos de seu rosto e eu podia ver claramente aquela expressão negra em seus olhos. Como você era divertido!
 Se fosse capaz de reparar-me, você talvez achasse que eu o amasse ou que no mínimo alimentava uma secreta obsessão por todo aquele seu mistério. Mas isso não era verdade. Na realidade eu não podia evitar de te ver e em todo aquele mundo era eu a única que te percebia. A anos eu te seguia e tentava achar alguma forma plausível de lhe levar comigo: uma febre, um infarto fulminante ou quem sabe até mesmo uma crise asmática. Mas toda vez que levantava o meu negro véu em sua direção, meus braços ricocheteavam, enfraqueciam-se e tudo que me restava era um sentimento duro, estúpido e vertiginoso: a misericórdia. Por algum motivo não podia levar-lhe comigo e isso me intrigava e no fundo até que divertia a minha alma imperene.
 Você, tão pequeno e insignificante, tão medonho e fraco, desafiava a onipotência da morte, de meu vistoso machado.  E eu ria, gargalhava e regogizava, pois sabia que você estava condenado a uma eternidade muito maior e mais penosa que a minha: a vida.  E quem sabe no final de todos os seus percursos, não acabasse por desejar o meu machado contra a sua goela ao invés da certeza de uma nova caminhada.

ASF


Qual seria a grande diferença do socialismo e do capitalismo? O que está no centro do sistema. Se no socialismo quem detém o total controle social são as instituições políticas, no capitalismo é o dinheiro. Ambas são sociadades limitadoras e que caminham para o "aburrecimento", a partir do momento que se coloca o indivíduo na periferia, como mera causa eficiente e não final. O homem tem que ser a finalidade da política e não meio pelo qual ela se sustenta. Quando deixarmos de ser meras colunas e passarmos a ser alicerces da nossa própria sociedade, aí sim poderemos propôr mudanças em nossa própria política!!

JOV

Ao analisarmos a inserção do jovem em pleno século XXI, por mais que a mídia diga que estamos mais engajados em certos temas aos quais antes nem dávamos a devida importância, acredito que esta afirmação não passa de mera especulação forjada pra alienar ainda mais a população. É bem escassa a legítima quantidade. Os adolescentes de hoje são puro reflexo da geração passada, isso mesmo, aquela totalmente desregrada que valorizava a cultura norte-americana, as drogas, as orgias, experiências de guerra, de criação de barreiras, da intensificação da desigualdade entre o mundo. O que vivenciamos é apenas a amplificação das coisas, só que numa escala exponencial, irreversível, banalizada. Os adolescentes em sua maiorida estão mais interessados em viverem suas vidinhas fúteis, onde tudo é cor-de-rosa, as pessoas se amam e tudo que acontece é em torno das revistas de modas que ela/ele lê ou dos pais que vivem a falar da Europa, dos EUA, ou de quão lixo o Brasil é. Das roupas de marca ou das baladas mais sensacionais de São Paulo, já que é legal ficar, beijar, aventurar-se. Decorar a matéria das provas do colégio particular. Por outro lado, temos uma classe humilde, a qual basta pedir pra que um adolescente leia meio parágrafo de um texto qualquer que notará a carência educacional, peça pra ele discutir um tema, ele não conseguirá; podemos dizer que a culpa é dele por não procurar a educação sozinho, poucos têm a mesma iniciativa que tive de ser um “autodidata”; não é fácil tirar suas próprias conclusões sobre determinados temas, e você não tem como pedir ajuda aos seus pais, nem a ninguém, já que seus pais possuem um grau de formação deplorável e sua professora lê na sala de aula a revista “Caras”. É muito mais fácil se entregar à massa condicionada ao trabalho mal-remunerado. Condição. A política pública mesmo que jure fazer de tudo pra transmutar a situação da educação brasileira, sinto muito em dizer que tudo não passa de mera tentativa, fracasso. Quanto mais cabeças pensam, mais terão o anseio de deter o domínio, não há vagas para todos. Puro caos. A projeção de futuro para esse jovem é continuar numa vida inútil, suja pela desigualdade e tão fútil quão dos jovens de classe alta, que pelo menos têm a possibilidade de estarem imersos na cultura global ou parte de tudo que ocorre no mundo, mesmo que 80% pouco se importem com isso, interessam-se somente em ganhar seu Nike Shox ou sua malha da Abercrombie que vem dos EUA, durante os passeios de fim de semana do pai.
“Decorem, decorem, comprem, consumem, sejam meu combustível, girem a roda da economia”; se existisse a Bíblia do Capitalismo certamente haveria um capítulo só pra educação massificada, do que deve ser ensinado, do que deve ser descartado, o que o sistema quer que você saiba, pra te moldar, pra que você seja o cidadão politicamente correto segundo os moldes deles. Cadê a autonomia do cidadão de atuar e se apropriar de um conhecimento segundo seu legítimo interesse? Por mais que pareçamos diferentes, tem coisas que nos unificam, ou melhor, massificam, basta analisar, é aterrorisante. Viva a sociedade mentecapta.
Se se passa na USP sua imagem será elevada ao posto das “cabeças” nacionais. Será mesmo? Simplesmente conseguistes decorar tudo que lhe disseram durante anos de estudo, apropiando-se de assustos válidos e outros que não lhe fizeram o menor sentido, tudo o que precisaria saber pra conseguir certo status na sua carreira. Uma boa faculdade.
Prazer, sou o número 17, da 2-3MB3, querem saber minha matrícula? Meu RG? E claro, quem sou eu pro Brasil a não ser um número de CPF que contribui com impostos? Pra sociedade não passo de número, estatística. Se eu morresse amanhã seria apenas um número que congelaria dia 20 de março de 2011 em certa hora do dia, do mês, do ano, ou seja, congelar-me-ia no tempo. Seria uma macrícula interrompida, no RG costataria falecido. O tempo civil, limitante, que não abre espaço às alternativas. O que chamo eu de realidade deixaria de existir, e a realidade do resto da polulação?
Seguiria constantemente, e cada um terá o mesmo fim, frio, e se morresse de uma forma bem trágica, estupefata, será assunto por alguns dias, pra que isso ainda traga benefícios pra mídia, ou seja, pra que se gere o último lucro possível.
Obra do destino? Acredito nos acasos e que isso gera um “boom” nas cadeias de acontecimentos e que esse “efeito borboleta” interfira em tudo, propague tudo de um novo modo e que a partir de um gesto, nada será como seria. Quando sua vida se intrelaça à de outra, prepara-te pra sucessão de fatores que hão de vir, impressionar-te-ão, ou a contudência dos fatores farão com que a semelhança os unam ou que as diferenças os separem, ou que o conflito entre a semelhança e a diferença lhe tragam a obra mais sublime de racionalidade, a qual atrevidamente poderíamos chamar de verdade.
Somos pessoas diferentes, com trajetórias diferentes, com metas diferentes, opiniões antagônicas e que juntas podem tirar conclusões a partir da própria dialética. Quando questionamos dois filósofos, imagino com desvaneio como se fosse uma Guerra Mundial; entre dois pensamentos, cada filófoso segue cara a cara com o outro, com toda a sua tropa de pensamentos a espreita; o Universo então lança um sopro que aciona todas as alavancas dos sentimentos e eles seguem numa velocidade furiosa de encontro um ao outro, o grito de guerra, as armas em mãos, os tiros de ideologias e as bombas que imergem a atmosfera em total suspense e dessa neblina não se sae apenas um vitorioso, e sim dois combatentes ainda mais fortes e preparados pra outro duelo. Vamos duelar?!

Só pra deixar bem claro não sou marxista, pode parecer que minhas ideias tangenciem a isso, pelo contrário, sou capitalista, apenos sinto que as coisas tomaram outros rumos, saímos do capitalismo e entramos num processo de desumanidade inadmissível. Afinal de contas, o mundo em si é uma grande comunidade, o ser humano sem si deveria ter uma instrução mínima de conhecimento, um discernimento pra discutir certos assuntos e condições mínimas de existência, não precisa ser o mais rico, mas também não o mais pobre, para que possamos competir de igual pra igual.

Qualquer coisa estou por cá, firme e forte.
Atensiosamente, JOV.

ACS


Nossa gente... depois de tantos impressionantes textos moralizantes me sinto até com vergonha de colocar minhas humildes palavras na tela - embora eu acredite que um dos grandes propósitos desse grupo de filosofia deva ser justamente colocar em prática as nossas habilidades discursivas. De fato, não posso deixar de mencionar que JOV e ASF, com os textos que vocês escrevem, não consigo deixar de imaginar quão bons juristas vocês podem se tornar. Vocês sete são pessoas muito especiais, como já sabem, e é difícil de acreditar que o Moisés possa proibir que o SPB se una a nós. Creio que se formos capazes de apresentar o nosso projeto de uma maneira clara e ordenada ele não terá escolha senão nos incentivar. Talvez seja preciso que a gente se organize antes para decidir quem falará o que e, se vocês me permitem uma sugestão, eu acho que nós devemos juntar à nossa ideia do grupo um projeto mais claro. Eu sei que no começo nós tínhamos falado de um "chá de filosofia", ou seja, nos encontrar lá e começar a discutir sobre um tema qualquer, aleatório. Entretanto, tenho a impressão de que o curso tem maior chance de ser aprovado como tal se houver algo planejado para as aulas, como por exemplo um texto ou filme que devamos ler/ver ao longo da semana e sobre o qual possamos discutir. Poderia ser tanto um poema como o que a ASF nos mostrou (Tabacaria) quanto alguma reflexão de um filósofo. Eu não acho que com isso o carácter de prazeroso vá ser perdido, e pelo contrário, teremos também uma bagagem cultural muito mais ampla ao fim do ano. Transformar a nossa turma em algo mais próximo do que poderia vir a ser um grupo de estudos universitário, com o qual tenho certeza que o nosso professor e orientador tem muito mais experiência que nós e pode novamente nos auxiliar a crescer e desenvolver. E com essa proposta em mente será ainda mais embaraçoso à direção do colégio recusar a nossa proposta, afinal haveria assim algo que o colégio também poderia chamar de "conteúdo didático" tanto no sentido que eles querem atribuir quanto no sentido de ter algo orientando o rumo que queremos seguir. Naturalmente, uma aula é longa e a partir do começo da discussão baseada no texto podemos direcionar o rumo da conversa para onde quisermos. Se vocês não quiserem tudo bem, não passa de uma ideia como outra qualquer para ajudar a persuadir a escola.
Mas mudando de assunto, nem que o SPB só possa se reunir a nós uma vez por mês quero novamente afirmar que fico muito feliz em participar de um grupo tão especial e insistir que a sala já está de qualquer jeito garantida para nós, ou seja não há motivo nenhum para deixarmos de nos reunir semanalmente como fizemos nas duas últimas sextas-feiras.
Ein schönes Wochenende und schöne Grüsse für alle,
Bjoos ACS =)

ASF


JOV não preciso nem comentar que seu texto é altamente inspirador, sua capacidade de persuasão, sua voz narrativa, sua entonação textual...tudo é digno de um gênio!! Você é um gênio e sem dúvida uma pessoa que mudará nossas vidas! Não só você, mas cada um desse grupo maravilhoso.
Acho que sem querer nos encontramos: em meio ao caótico descobrimento adolescente, coação externa ou familiar, arrebatamento diante de um mundo que nos impõe infinitas possibilidades e a desesperada procura por uma identidade individual, um “eu” que seja tão exclusivamente nosso, como será posteriormente social. Nós nos achamos. Seja naqueles corredores estreitos, na arquibancada que dá para o campo, nos limites de nossas próprias classes, nos reconhecemos como semelhantes opostos, em uma instituição burocrática tão voltada para uma nivelação social: alunos saudáveis, que sabem aproximadamente 60 fórmulas entre matemática, física e química; alguns que falam alemão e a maioria inglês; que copiam tudo que os professores põem mastigado na lousa; que não lêem mais do que livros que caem nos vestibulares; e principalmente que sabem assinalar uma alternativa correta entre quatro.
Dentro da escola não somos JOV, ASF, LGG, LHM, RG,VSP, JNN e ACS, como nos conhecemos. Somos alunos. Um dentre os 5000 que estão lá agora e um dentre os quase meio milhão que já fizeram parte daquela escola. Talvez daqui a alguns anos quando o nosso colégio já tiver formado novas turmas de terceiro e outras pessoas tiverem entrado nas faculdades que sempre sonharam, então tudo que restará não passarão de vestígios arquivados na advocacia da escola e nossos nomes vazios, como parte da lista de alunos que se formaram em 2011, sem matéria, sem rosto, amórficos, apenas um conjunto de letras na celulose. E sabe de uma coisa, nós podíamos nos conformar com tudo isso. Podíamos muito bem abrir nossos livros, gabaritar diversas provas, freqüentar todos os plantões, conversar com alguns professores, tirar nossos certificados e seguir em frente. Seguir como milhões de outros fizeram e fazem, pois obedecer e se resignar é extremamente mais fácil do que revolucionar e questionar. E conhecendo vocês o tanto quanto conheço, sei que vocês optaram pelo caminho mais difícil. Portanto proponho o mesmo que o JOV, que falemos com o Moises e que mesmo que a resposta seja não e que tudo seja proibido, que o grupo jamais morra. Porque essas coisas acontecem por acaso, mas só por um acaso extremamente raro, tão raro que a VSF e o RG chamariam de destino.
Amo vocês e encontrei nesse grupo uma parte daquela identidade que venho tentando com tanta dificuldade construir, e diria que vocês são a melhor parte dela. Somos todos muito opostos e só por isso podemos nos considerar complementares, afinal é do debate, do choque, do CAOS que nasceram as mais belas estrelas.

Liebe Grüsse turminha e até segunda!

JOV

Hallo Leute,
Bem-vindo às oposições do mundo moderno, ainda bem que pensar demais não é crime. Se se tenta montar um grupo informal pra discutir filosofia, surge a devida conotação "não percam tempo a discutir filosofia, estudem para o VESTIBULAR", como se uma prova com n perguntas pudesse realmente medir o meu nível de conhecimento; de fato mede, porém é o conhecimento que o sistema quer que saibamos e não o que um estudante de verdade deveria absorver como prioridade. Que valor nós aprendemos de cidadania? Os colégios em geral acham que é mais importante você saber química orgânica, por exemplo, do que mostrar pro cidadão o valor de um voto e ensinar o jovem a se engajar politicamente. Afinal o que é política? Por que homens controlam e outros são controlados? Se bem que indireta- ou diretamente possuimos educação de ponta e somos instruídos ao grupo dos que controlam.
Quero perder muito tempo da minha vida a estudar filosofia e conhecer as teorias destes filósofos que são mais neuróticos do que eu, identificar-me, conhecer preceitos; talvez desta forma eu não me torne mais uma pessoa problemática, que respira obrigações, condicionada ao sistema, age como robô, cega. Filosofia é a minha droga, sem exageros, adoro quebrar a cabeça ao tentar endender o sentido que um filósofo x ou y expõe, isso pra mim é treinar raciocínio lógico.
Avante, seja com nosso Moderador, ou seja sem ele, temos um objetivo e um foco, somos um grupo, pensamos diferente, temos cultura e experiências a compartilhar, e ninguém pode nos impedir.
Além disso, sei um que dia riremos muito disso e teremos orgulho de contar para os nossos filhinhos/netinhos ou quem quer que seja, que tínhamos um grupo de filosofia no terceiro colegial. Apreendo a opinião de que é uma atitude surreal e que tratamos de assunto de gente que pensa e que realmente se interessa pela razão, pelo ser, pela arte do pensar!
Espero que estejamos juntos próxima semana, o assunto decidimos no decorrer dela.
Liebe Grüsse und sei immer wie ihr seid.
Auf Wiedersehen, ein schönes Wochenende.
J.O.V

ADF

Nosso grupo é formado por 8 estudantes do terceiro colegial e 1 professor de sociologia, filosofia e história. Aqui cada um contará sua história e seus pensamentos, e começamos com o poema de Fernando Pessoa "Tabacaria".
Nossa ideia surgiu devido à nossa paixão por filosofia e pela dialética, e decidimos formar um grupo que se reúne sextas à tarde para debater os mais diversos temas.
Após duas semanas trocando ideias no facebook, decidimos transferir nossa conversa para um lugar público, onde outros possam comentar à vontade.
Admiro muito cada um de nós e me orgulho de fazer parte de algo tão lindo.
Att,
VSP

Tabacaria - Fernando Pessoa

    TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
 
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
 
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
 
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
 
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
 
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
 
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
 
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
 
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
 
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928