quarta-feira, 30 de março de 2011

ASF (crônicas)

Acabei de decidir que toda quarta eu vou postar alguma coisa no blog (não reparem, eu tenho mania de organizar meus horários e dias da semana... momento TOC!). Bem, dessa vez é mais uma crônica que faz uma alusão no final à fraqueza da religião, como somos nós mesmos quem criamos as divindades e num simples ato sóbrio podemos acabar com elas. Espero que gostem e sorry por ele ser meio longo!


Formigas

  A rua vazia acabava a uns cem metros dali, antes de entregar-se à floresta. Com seus pinheiros tortos, gramado cortante, flores ofegantes e algumas poucas cigarras, era realmente notável que o pequeno menino pisasse com tanta firmeza. Aqueles olhos claros se perdiam em algum lugar do crepúsculo, fundindo-se ao céu cansado que de mal grado dava lugar às estrelas. O horizonte preguiçoso estendia-se por toda a escarpa e fazia de cada passo um movimento insondável no nada, como se mesmo seus maiores esforços para chegar ao outro lado, quando alcançados, fossem consumidos pela amplidão do interminável, dos arvoredos que se estenderiam para além-ver. O garoto era assim, um ponto simpático na natureza, mas de uma pequenez tão aguçada quanto de uma formiga operária diante da rainha. Era fofo e achatado para os lados, traços que eram fortemente acentuados pelo pescoço curto e as bochechas roliças. Tinha nas mãos aquele cheiro de mogno e poeira, o mesmo da mesa do porão.
Francisco era realmente diminuto com todos os seus hábitos estranhos e estúpidos, gostava de colecionar formigas de todas as espécies, desde as pequenas rechonchudas até as alongadas cor-de-fogo, gostava acima de tudo da forma como as formigas interagiam entre si, como seguiam cegamente a um líder e temiam solitariamente as chuvas. E ele se sentia como elas, obediente e temeroso, cego e solitário.  O pequeno devia ter os seus sete anos, mas já cultivava hábitos de adulto, tinha a mania de pensar muito e de na maior parte das vezes não fazer nada, como se seus pequenos problemas de fato demandassem grande energia e esforço psicológico para serem resolvidos. Mas tudo isso era agora indiferente, suas manias, seus hábitos e suas origens eram invisíveis na trilha solitária. E ele sentia-se vivamente único, como se toda a floresta estivesse ali para dar-lhe passagem, como se Deus tivesse gastado uma força tremenda para criar aquela biosfera, agora unicamente explorada por ele, Francisco, o jovem Adão de todos os homens.
  Esses pensamentos soariam estranhos e vagos se ditos em voz alta e por isso ele fechava os olhos quando estes o invadiam, esperando que a escuridão desse mais clareza e sigilo a todas as suas palavras. E assim, entre o acordado e o sonâmbulo, Francisco continuava seu caminho pelas araucárias até a igreja. Ia devagar, com passos entrecortados e leves, e só quando os pensamentos assumiam novas dimensões avassaladoras, ele desviava, pisava pesado e rígido, como que para acordar de um delírio e com orgulho esperava silenciosamente até que o calafrio atingisse-lhe o crânio e depois saísse lentamente pressionando as hérnias e a espinha.
  Toda a caminhada não demorava mais de meia hora e logo ele encontrava-se na igreja. Era fácil de perceber quando seu destino se aproximava, graças ao cheiro forte de perfume feminino e as conversas meio que gritadas em clamor e abafadas pela umidade do ar, que tornavam-se cada vez mais intensas e opressoras em seus ouvidos. Nesse momento o pequeno abria os olhos, pois sabia que seria falta de respeito apresentar-se como sonâmbulo para toda a pequena comunidade católica de Borá.
  Os rostos lhe eram conhecidos, todas pessoas do bairro e que moravam ali desde sempre. A menina das laranjas, o pescador recluso, a mãe de cinco crianças, o rapaz que se mudaria para São Paulo, a moça que era muito bonita e o menino que parecia retardado. Amontoados, todos esperavam unicamente a presença do pastor no altar para entrarem furtivamente no reino de Deus, ou era assim que ele preferia chamar.
 Francisco era muito religioso e sempre teve em mente que seria um discípulo e mais um dos co-autores da Bíblia, vez ou outra perguntara isso para a sua mãe, se tinha algum tipo de faculdade para os futuros representantes de Deus, pergunta que ela respondia sempre com um sorriso raso e um “ Volte a brincar nas macieiras, meu filho”.  Essa era uma das poucas coisas que o indignava: a obstinação de sua família.
  As pessoas começaram a agitar-se, o pastor havia chegado e já estava na porta da igreja cumprimentando os irmãos. Francisco apressou-se por entre a microscópica multidão e infiltrou-se antes de todos no corredor. Buscou sua cadeira na extrema ponta direita e ficou ali até que a missa e o sermão começassem, ignorando os outros que lentamente acomodavam-se nos bancos. As portas foram fechadas e um silêncio automático tomou conta do altar. Os passos do pastor agora soavam altos e prendiam a atenção de todos os presentes graças à inquieta magnitude de seu eco. Seguiu até o final do corredor e deu início às preces de rotina. Um pequeno coral acomodou-se atrás dele e puxou o canto dos fiéis. Depois se deu início ao sermão do dia, uma citação do livro Apocalipse e toda uma corrente de perguntas e pensamentos foi levantada pelo pastor, que quando queria causar maior impacto na platéia, elevava sua voz ao tom mais agudo, quase estridente e segurava de forma agressiva ora a bata, ora a Bíblia.
  Mas por algum motivo, Francisco não conseguia prestar atenção, não que ele não compreendesse os vocábulos ou até mesmo o teor de todo o sermão, mas sim porque de alguma forma estranha, ele sentia-se como num trem, onde todas as palavras do pastor não passavam de arvoredos ou casas que se moviam apressados e indistinguíveis em sua frente, e que depois de uma longa viagem só restavam como vultos fugazes e irrelevantes dentro de si.
  Isolado ali no extremo direito, Francisco esforçou-se para olhar pra trás e lentamente fixou o olhar em cada um dos rostos resignados dos moradores. O menino adquirira agora, como uma flor brotada na adversidade, uma percepção de mundo inteiramente nova. Aquelas pessoas não passavam de minúsculas formigas, temerosas e obedientes, esperavam da formiga-rainha um tipo de perdão e misericórdia pela oferenda, pelos incansáveis esforços que lhe custavam a vida. Com a pequena diferença que a sua rainha era divina, imortal e nunca tinha sido vista. Sua rainha era Deus, que forçava-lhe a fazer certos sacrifícios imaginários e oferendas ao impalpável.
Por um segundo toda a religião pareceu-lhe tola e fraca. Com um movimento cansado, olhou para baixo: bem sobre seus pés, a cerca de dez centímetros dali, estendia-se uma fina corrente de formigas anãs.  Engraçado! Olhou-as com o desdém de quem descobre dentro de si uma verdade absolutamente nova e potente, e esmagou com os pés descalços uma a uma. Levantou do banco e saiu da igreja com uma única pergunta que não queria calar: quem seria ele diante da grande formiga-rainha?  

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