Mais um texto que me veio à cabeça, nas minhas caminhadas solitárias na Paulista, hehe! Espero que gostem.
A praça e o céu
No cruzamento da grande avenida e da modesta rua residia uma praça misteriosa e rasgada pelos contornos do lago. A pequena passaria despercebida diante da gloriosa vastidão da cidade. Seus traços verdes diminutos e outrora amplos, agora se comprimiam em um terreno de trezentos metros quadrados e até mesmo o belíssimo lago dava espaço à civilização. Passavam naquela esquina diariamente milhares de pessoas pobres, ricas, apressadas, bonitas, artistas e crianças. Mas a praça não ligava, não ligava pois era velha, dura como concreto e sabida. Conhecia a cidade em seus mínimos detalhes e os habitantes em todos os seus pormenores. Conhecia as jovens atraentes pelo som escandaloso da voz; os velhos bêbados pelo eco líquido e despreocupado dos pés; os homens de negócio pelo desespero irremediável e a pressa irritante das pernas, e as crianças pelo odor da curiosidade. E por serem os homens tão óbvios e padronizados, a praça nunca dera grande importância a eles. Gostava mais era do céu infindo que se estendia por sobre as copas de suas árvores, agora simetricamente podadas, e que assumia sempre uma feição nova. O céu não tinha padrões, não passava de conglomerados de água ora grossos, ora finos, que esculpidos pelo vento deram início ao que o homem chamou de fantasia. Como podiam filamentos tão leves e frágeis de vapor sustentarem as estrelas e encobrirem os maiores astros? Isso ela nunca entendera. Mas tinha uma imensa vontade de pertencer a ele, de reduzir-se a pó para secretamente elevar-se àquele gigante.
Mas uma praça tinha seus humildes deveres para com a humanidade, tinha de estar sempre bonita e forte, de exibir os mais extravagantes jardins e cortejar os mais vistosos animais. E mesmo sem nenhuma vaidade a praça seguira desde sempre sua servil atividade e em troca, como uma boa escrava, recebia em seus cantos mais escuros, próximo aos matos mais úmidos, o deleite dos amantes. Gostava dessa parte da espécie humana, pois achava que depois dos céus, era o amor o maior autor das fantasias. E fazia questão de silenciar suas árvores, calar os animais e reduzir os barulhos da cidade a pequenos zunidos inaudíveis, quando um casal aproximava-se de seus bancos.
O encontro era mesmo uma coisa linda, como água e estática formavam as nuvens, a essência dos céus; o homem e a mulher quando juntos davam vida à paixão, à essência da terra. Sorrisos, roçar de lábios, palavras tímidas e olhares ousados eram apenas o plano de fundo do encontro, cuja natureza magistral da praça era platéia. A finalidade do encontro não era o sexo, o beijo ou o ombro amado, mas sim a presença, as semelhanças e o aconchego; era o reconhecimento do final da solidão, da existência da alma fora de si mesmo, onde o sexo, o beijo e o ombro não passavam de necessidades fisiológicas e mesquinhas de se orgulhar da maior de todas as conquistas: o amor.
E a praça queria ser assim, queria poder ter necessidades fisiológicas e alma, mas não as tinha. Ficava triste e murcha e mesmo as mais formosas chuvas não saciavam sua sede. O asfalto ia perdendo seu brilho, as plantas curvando-se em direção ao chão e de repente via-se aquela pequena, agora vulnerável e chorosa, fechada dentro de si.
Mas dizem que a Mãe Natureza é sábia, e se não o for é no mínimo sensível. E foi numa noite quente, dessas de primavera tropical, que aconteceu para a praça o maior de todos os milagres. Naquele mesmo agitado quarteirão um prédio pegou fogo e lentamente espalhou todas as suas voluptuosas faíscas no ar da avenida. Agora se esticando e agitando-se incansavelmente para as alturas, a pequena praça tentava atingir mesmo o menor vestígio de fogo restante. Queria ultrapassar seus próprios limites e atirar-se ao prédio num desejo insaciável de suicídio, mas a humilde praça não tinha braços, nem pernas e muito menos alma. E por isso devia saciar-se com a vontade do vento, fosse qual fosse o destino que este a reservasse. Mas o vento foi naquela noite generoso e trouxe levemente em seu corpo invisível uma faísca fina de fogo, grande o suficiente para incendiar a primeira folha, depois a primeira árvore e logo todo o corpo da pequena praça ardia em chamas vermelhas, alaranjadas e fumarentas.
No final do espetáculo restou da humilde praça da avenida apenas uma poeira escura e orgânica, sem forma nem peso e que lentamente elevou-se aos céus para juntar-se às estrelas. A praça teria finalmente o seu primeiro encontro.
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