quinta-feira, 28 de abril de 2011

LHM

Dedico esse texto a um ser humano: egoísta, imperfeito e ainda assim capaz de surpreender os outros de sua espécie.
                                                               Olhos
Nunca esquecerei daqueles olhos cor de gelo, que pela primeira vez na vida vi transbordar em lágrimas doídas, naquela fria manhã de Julho.
Aquele olhar tão profundo agora se despedia de mim com tristeza, fazendo promessas em vão de um futuro que não chegaria. Um futuro o qual sempre havíamos comentado em conversas bobas, fazendo planos para os dias ainda mais felizes que estariam por vir.
Seus olhos  quase transparentes deixavam ainda mais claro seus pensamentos, seus arrependimentos, suas dores, seus medos e suas felicidades.
Aqueles olhos claros não me pouparam da tristeza ao deixarem-me aqui.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

ASF (crônicas)

Bem, hoje eu estou postando bem mais cedo do que de costume, mas o problema é que eu ainda tenho que escrever meu texto de filosofia do zero e vai saber que horas eu vou conseguir acabar essa redação! Anyway, o texto de hoje foi escrito faz um tempo, depois que eu voltei de um longo passeio no Ipiranga, tinha um desses conventos, que era também meio que uma escola católica, muito bonita por sinal, e vocês sabem como esses lugares sombrios inspiram meus neurônios! O resultado vocês vêem ai embaixo...Espero que gostem!
Beijos do gordo pra vocês!

Egoísmo

Ela era uma menina estreita e retraída, ele um homem tímido e carrancudo. Ela tinha no máximo quinze anos e ele no mínimo seus quarenta. Que casal estranho nós formaríamos! Alberto era professor de matemática há mais de dez anos daquela mísera escola que ocupava toda a esquina da Rua Brooklin. O bairro era pequeno, não se estendia a mais de cinco quarteirões além dali. A verdade é que o Colégio Nossa Senhora da Penha era um desses casebres antigos, abandonados por alguma família de imigrantes lusos que foi tentar a sorte no Sul do país. O terreno era bem anoso e ainda cheirava a ovo e óleo. Quando a Freira Maria comprou o espaço não sabia que seria tão difícil administrar uma escola daquele porte, a vida no convento era realmente mais fácil. Tinha apenas de lavar suas roupas, que não passavam de alguns mantos negros acobreados; recolher- se à cama antes das dez e carregar consigo um terço e algumas poucas rezas que repetia sempre às quatro da tarde para Jesus. Desistiu de tudo aquilo não porque perdera a fé, isso nunca. Mas por que achava que pouco valia para a sociedade toda aquela vida arcaica de devoção, ninguém jamais faria bom uso do remanso de suas orações. E foi por isso que saiu do convento e fundou o comedido colégio da Rua Brooklin.
 Alberto sabia de toda essa história, mas não ligava, fingiu ao longo daqueles dez anos que era católico, porque sabia que sem mestrado ninguém jamais lhe ofereceria um salário daqueles. Ele se acostumara com a religião e depois de uns dois anos havia decorado o nome de uns três santos, mas não sabia bem para que serviam. Aprendeu a usar a palavra “Senhor” no lugar das vírgulas e a terminar as frases sempre com “Amém”. Ele até que se fazia de bom homem devoto. Alberto, na realidade, fora anglicano desde criança, mas desistira da crença quando descobriu que o Henrique XVIII havia criado a religião apenas para desposar Ana Bolena. Como ele odiava o egoísmo. Logo depois de conseguir o emprego casou-se com uma ex-aluna, daquelas que se encolhiam no fundo da classe e tinham uma rasa familiaridade com os números, ela não era linda, mas tinha um sorriso irreverente. As outras freiras da escola não gostavam nada daquele casamento e adquiriram o corriqueiro costume de virar os olhos quando reparavam em sua aliança. Mas ele não ligava, e, provavelmente, jamais ligaria, pois no fundo, no fundo ele não acreditava em pecados. Mas nos milagres. Ah, nesses ele acreditava!
 A menina aproximou-se da mesa do professor, com aquele mesmo doce sorriso irreverente que o fizera se apaixonar por sua esposa. Alberto não conseguia evitar repousar os seus olhos nos quadris da pequena. O movimento era assim, quente, espalhafatoso, herético. A forma como sua anca se jogava voluntariamente ora para esquerda, ora para direita, o hipnotizava e dava um ar dramaturgo para cada um de seus movimentos. A menina aproximou-se um pouco mais, puxou a cadeira e deitou os quadris. Ufa, ele não teria mais de controlar seus instintos. Olhou-a nos olhos, como ela era egoísta! Sentada ali do seu lado, a garota lhe fazia perguntas tolas e exigia algum tipo estúpido de aumento na nota e ajuda para concluir a escola sem repetir de ano. Ele fingia que a ouvia da mesma forma que fingira ser crente. Os olhinhos morenos fitavam-no, chegavam a ser intransponíveis, mas como ela era egoísta. O hálito virgem, santíssimo da moça, agora chegara a sua narina e ele não podia evitar naufragar em seu cheiro; sentir a aliança apertar-lhe o dedo de uma forma incômoda. Eu tenho mais é que me livrar desse empecilho, e se ela acreditar em pecados, então jamais aceitará o adultério!
 E então o hálito da criança já o invadira, passando pelas fossas nasais seu aroma ia direto para o coração, depois para as artérias, para o fígado e finalmente se abstinha na pele. E dali não saia, tal como pó em madeira, impregnava seu pêlo de indecência e eretismo. E a menina não saía, por que não se afastava, por que insistia em lhe falar de tão perto, em se debruçar imprudente no colo da mesa? E ela era tão egoísta. Eu odeio o egoísmo, odeio. A forma imoderada como clamava por ajuda, o exagero dos gestos adolescentes, a inquietação dos lábios de menina... Tudo isso o torturava. Não, pior... Tornava-o crédulo.   
 Ele, que nunca acreditara no pecado, agora o sentia em suas veias, voltando para o fundo do coração para depois lhe banhar toda a alma. Afastou-se da moça, e empurrou em um único impulso a mesa de professor. Puxou a pequena pelos pulsos, como se fosse criminosa, e deitou a palma de sua mão no rosto da criança. Tocou-lhe os lábios, o pescoço, os dentes, até poder, com a língua, encostar-lhe no céu da boca. Como ele era egoísta. Mas a pequena gostava! Gostava não do egoísmo, mas do pecado.

domingo, 24 de abril de 2011

ASF (poesia)

Bem, eu sei que já é quase madrugada e faltam talvez uns três minutos para amanhã e como eu quero publicar esse poema ainda hoje, tenho que ser rápida! Então, cá está meu último texto (com umas rimas meio trouxas, mas o que vale é a intenção!). Espero que gostem!

Leilão de mim mesma

                                              
Vendo-me em pedaços!

A feiúra, esta desgraça
Penúria dos anos malquistos
Dou-te de graça

A beldade estragada
Hedionda da idade madura
Vendo-te a troco de nada

Minha força quando ainda no começo
Meu corpo que fora travesso
Estes entrego sem preço

Os olhos não mais atrativos
Juntos com os sonhos já polarizados
Os leilôo sem fins lucrativos

As lembranças antigas em aquarelas
Ruínas de mim mesma em outras eras
Peço que as compre em nove parcelas

O violão e os desejos de quando fui anarquista
As palavras em fuga do meu sotaque paulista
Estas eu vendo apenas à vista

O amor como um compromisso futuro
Tudo aquilo que entreguei prematuro
Estes hei de cobrar com juro

Vendo os sonhos
Entrego as sortes
Leilôo os talentos
Me desfaço em punhados
Me dou por inteiro

Vendo a vida
Entrego a bebida
Leilôo minh’alma
Me esvaeço por completo
Me dou por vencida

E então quando leiloada em pedaços
Peço que deixes comigo uns retalhos
Daquilo que ficou perdido em subespaços
Entre mormaços da vida passada
Peço que deixes comigo, por fim, os cigalhos
Daquilo que fui quando tua namorada
Pois vendo de mim tudo, menos o que restou de VOCÊ!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

ASF (poesia)

Pois é, decidi sair da rotina e publicar um texto em um dia que não é nem domingo, nem quarta (mágico hein!). Escrevi esse poema ontem de madrugada esperando o programa "De frente com a Gabi" começar. Acho que me inspirei nessa fase MPB que a minha familia está vivendo agora e nas pessoas que acabei esbarrando no Anhangabaú (culpa da Virada Cultural). O texto não está muito bom (acho que o Chicão falaria que as rimas são pobres, hehe), então estou dando uma enrolada em vocês! Anyway, não tem mais o que falar. Espero que gostem.


Infinitivo da vida bandida

Os joelhos contundidos, tal como os sonhos
A barba por fazer, os cabelos por cortar
Nenhuma ideologia pra viver
Os filhos pra cuidar

O apartamento coxo, sem janela pra arejar
O cinto frouxo, sem ninguém para apertar
O carpete carmim, sem mulher para abraçar
A parede do botequim, sem espaço pra mijar

O brilho nos dentes, tal como o luar
O sangue quente, rangendo sem parar
A criança naquele ventre, tal como o olhar
Sempre impotente, sem vontade de continuar

As pernas mancas não podiam mais andar
O bagaço do engenho não podia mais embotar
As coxas da esposa sem viço para engrossar
A conta de luz não sabia como pagar

As crianças sozinhas sem ninguém para amar
A filha com espinhas com vontade de dar

A pedra amarga começou a evolar
Uma resistência nova, os delírios passaram a gerar
A síndrome de abstinência para sustentar
A família ele ainda queria salvar

Comprou uma arma com o amigo Escobar
E ainda alucinado foi para a praça esperar

Olhou uma última vez para o que chamou de lar
Segurou o revólver com a fome de roubar
Esperou o último ônibus passar
E partiu para cima da moça assaltar

Os olhos que não sabiam marejar
O juízo que começara a minguar
A mulher que passara a chorar
O bom senso que insistia em recuar
O dinheiro que poderia achar

A arma querendo apenas trucidar
Matar, atirar
O cadáver e uns trocados para enfim embolsar
Teria hoje por fim dinheiro pra guardar

domingo, 17 de abril de 2011

LHM

Indiferença
Nunca pensei que fosse parar de me importar com o que passou, nem que tornaria as lembranças, antes tão sagradas e queridas, em nada mais nada menos do que pó.
Memórias do meu passado hoje não me assombram mais, já que entendo que meus fantasmas apenas fizeram de mim uma pessoa forte - talvez não tão forte quanto eu gostaria, mas ainda assim capaz de manter o equilíbrio enquanto o mundo afunda sob meus pés. Detalhes de minha vida tornam possível que haja uma indiferença perante certos atos que antes acabariam comigo.
A vida muda, os anos passam, as pessoas crescem. E agradeço ao tempo por ser tão sábio, e nos entregar, sempre na hora certa, as recompensas da vida.

ASF

Como hoje ainda não me veio a inspiração para um poema (culpa do meu dedinho quebrado e dolorido), eu decidi publicar uma crônica bem curtinha mesmo que foi, por acaso, a primeira que eu escrevi esse ano! Ela foi um desses textos que a gente escreve olhando para além da janela, para o final daquela esquina onde temos certeza que se escondem todos os namorados, todos os assassinos, todas as vidas que a gente tão bem desconhece. E quem sabe essa não fosse uma delas! Espero que gostem.



O vento da noite

Uma moça estava sentada no coração da calçada, era noite escura, tão escura quanto o pranto.  Ela sorria, sorria entre lágrimas claras, tão imprevisíveis quanto a noite. Acolhida no manto de escuridão viçosa, a linda moça o esperava. Os cabelos, assim como as palavras, haviam perdido a cor com o tempo e, assim como o toque, arrepiavam-se com a noite. E ela o esperava. Espreitava estática a esquina vazia, os fios de fuligem que manchavam o horizonte de concreto. Ela o esperava há anos, sempre na mesma esquina gasta e obsoleta, sempre com os mesmos olhos negros de ferrugem.
 Depois da última carta, Umberto sumira. Dissera que iria para a guerra, mas que dentro de dois anos estaria ali, dentro da casa número onze que dava com a esquina escura. E ela manteve sua promessa, disse que o esperaria e que dentro de dois anos estaria pregada na calçada, ingênua, jovem e pronta para ele. E era por isso que sempre se via a linda moça chorando na frente da casa onze. Vestida de preto, lábios quebradiços como asfalto e maquiagem borrada como a noite, ela o esperava. Alguns diziam que era louca, outros que era bela, mas a verdade é que, para ele, ela era única.
E ele a via. Via sua silhueta jovem transbordar no cimento, sentia seu gosto antigo adocicado de tabaco e muito pior, ouvia os seus suplícios esfriarem a esquina. Ter de estar ali sem a possuir era uma dor, uma tormenta que nem mesmo a morte conhecia. Mas ele conhecia a morte. Oh, se conhecia! E a morte era fria, mais fria que a sua ausência para a jovem, e talvez por isso ela tremia. Sentia aquele vento gelado de ausência penetrar-lhe as dobras do vestido, acariciar-lhe o negro decote aberto, e ela deixava. Deixava que o vento invadisse a renda e apalpasse sua alma, pois sabia que naquela noite escura quem lhe tocava era Umberto.  

sexta-feira, 15 de abril de 2011

JOV - Digno pensador qualquer

Assim que um broto de Primavera surge
Ouve-se ao longe o grito da monotonia
De repente da calma fez-se a ventania
O ser mais importante a ele nascia
Dar vida às vidas ali, sem sintonia

A juventude diferente, parecia a dos outros
Viver como aqueles não era viver
Resgatou suas lembranças do Mundo das Ideias
Racional, pensou nos demais
O mundo era ignorante
Pensou nas crianças
Sempre mudas, telepáticas
Nomeavam-se bichos
Simplicidade é uma rosa
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Pensem nas feridas
Que estigmatizariam

Já na juventude, virou sábio
Para quem tudo é novo
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Sucesso, buscava uma coisa
Que nem ao menos sabia
Os bons, viu sempre passar
No mundo graves tormentos
Os maus, viu sempre nadar
Em mares de contentamento
Quis ser mau, ficou louco
Sim, louco, porque quis grandeza
De repente, não mais que de repente

Em sua lúcida insanidade
Ria dos filhos que em vão rezaram
Irônico, rico em dialética, dizia:
Sou como tu me enxergas
Posso ser leve como uma brisa
ou forte como um vendaval
Depende de quando e como tu me olhas passar
Não esqueço nunca do que recordo
Mas há poucas coisas que eu me lembre
Mas que seja infinito enquanto dure
Estes vãos pensamentos

Quando mesmo em face de seu maior encanto
Dele se encantava mais seu pensamento
O comum tinha uma beleza nada trivial
Que lhe fazia vangloriar seu ego banal
Talvez fosse ordinário porque via a perfeição
Que um ou dois homens de outras terras
Firmavam com engenho esta mesma aspiração
Propôs em seu louvor que ia espalhar meu canto
E rir seu riso e derramar seu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
Fase dos sentimentos, que todos se sentimentalizavam
Até mesmo os velhos que ali velhavam

Já no fim, bem no fim
Que saudade que tinha o primaverense
Da aurora da vida de tão recente
Que os anos não trarão mais
Ele não deu por esta mudança
Tão simples, tão certa, tão fácil
- Em que espelho ficou perdida
tua face?
Não sabia responder,
Lamentou ao saber que não sabia o que era

A esperança prevalecerá
Muitas uniões viram lutar
Nesta terra onde havia filosofado
E nada, (culpa dos homens)
Pode concretizar

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez ele sabia,
Mesmo em sua jornada ao além, sabia
Que os pássaros saudariam
A incerteza do dia
E os crepúsculos selariam a noite
Mantendo as pedras que
Outros encontrarão no caminho
                                                           

ACS - Carpe diem

O que eu fiquei fazendo em vez de estudar para Deutsch... Rimando palavras para um sonetinho! XD

Carpe Diem

Nasci sob um tic-tac controlador
Era a audácia de seus ponteiros tida
Como a guia de minha curta vida
Liberdade dela existe, senhor?

Estudo e exercícios, que idéia linda
Porém na prática um mero esplendor
Horas com livros, e se assim não for
Grande carreira não será bem-vinda

Sempre cansada, com dedicação
Mesmo mantendo a recompensa em mente
Paro e penso se não foi tudo em vão

Embora eu espere, a vida não mente
Nenhum bem planos ao mundo farão
Pois é o tempo que temos decrescente

quarta-feira, 13 de abril de 2011

ASF (crônicas)

Como sempre, postando minha crônica de quarta-feira! Essa eu escrevi faz algum tempo, logo depois de ler "O Velho e o Mar". Me senti inspirada e tentei escrever sobre um velho pescador que há muito tempo não pesca nada. Um homem sozinho, cansado e devastado que em um último esforço de vida tenta capturar o que seria o seu maior peixe! O texto é meio viajado, porque eu nunca fui uma pescadora e nem ao menos cheguei a conhecer um, infelizmente, mas pretendo no final da minha vida arranjar um barquinho, fugir loucamente para a Colômbia e criar a minha própria tripulação de marinheiros latinos! (doce ilusão) Espero que gostem...
"Beijos do gordo" gente!



O velho pescador do mangue

 O velho pescador ancorou o pequeno bote nos pés do manguezal e levou consigo as redes, as iscas e o mastro. Saiu silencioso, roçando os dedos na barba longa, como se puxasse uma palavra esdrúxula do fundo de sua boca. Já era um pouco tarde, por volta das seis e não era comum ele sair de um dia ensolarado com as mãos vazias, sem no mínimo um grupo de sardinhas. Que miséria! Talvez ele tivesse perdido o dom, fazia tempo que o velho não seguia as regras básicas da pesca: buscar lugares onde a concentração de albatrozes era alta e, de preferência, próximos à vegetação mais densa do mangue. Mas a verdade é que ele estava cansado de regras estúpidas. Era um senhor inteligente e observador e com seus mais de quarenta anos de experiência, sentia que qualquer tipo de regra infame era desnecessária, afinal a vida já lhe havia ensinado muitas delas.
 A constante rotina em baixo do sol deixara-lhe algumas marcas permanentes e grossas próximas ao cenho e principalmente no antebraço; tinha uma cicatriz chamativa no alto do peito que havia adquirido durante uma tempestade, quando tentava agarrar-se ao barco, e o velho gostava de exibi-la orgulhoso como se fosse uma ferida de guerra ou uma tatuagem tribal. Era um sujeito de resto simpático e mesmo as mais gritantes queimaduras não conseguiam afetar a amabilidade de seu rosto, com seus sorrisos sempre largos e gestos agradáveis. Tinha em toda a pequena cidade um grupo de amigos, que o tratavam mais como mestre do que como companheiro, não fizera ao longo dos anos nenhum parceiro de ofício, pois odiava a opinião de segundos e principalmente a perspectiva de concorrência. Seguia todos os dias seu caminho para casa antes do anoitecer e voltava para o centro da cidade à noite para ter o seu pedaço de imoralidade. Sua esposa morrera de câncer fazia dez anos e depois dela ele decidiu-se por esquecer o amor. Chegou a ler alguns romances, desses de banca mesmo, mas logo desistiu, pois tinha dificuldade com as letras. Era engraçado que todas as vezes que se propunha a ler, até mesmo as manchetes mais simples, deparava-se com uma infinidade de símbolos e pontuações, que lentamente assumiam formas, corpos e sentidos, que só muito mais tarde conseguia compreender.
 Este sujeito meio analfabeto e bondoso despertava em todos uma silenciosa misericórdia, como um cachorro sarnento e solitário que nos clama timidamente por atenção e arranha pacientemente nossa perna até obter qualquer pedaço velho de carne. O velhinho causava até nas mais vívidas prostitutas uma sensação de caridade, de filantropismo.  Era conhecido em todos os bares e só abandonava o balcão quando já era até mesmo difícil permanecer em pé. Por volta das quatro da madrugada já se encontrava na cama, dormindo um sono pesado sem sonhos.

 Isso se seguiu por mais de um mês, durante o qual ele sempre voltava de mãos vazias para casa, apenas com suas redes, iscas e mastros pesadamente sustentados pelas axilas. O velho já estava decepcionado e até passou a alimentar certo ódio pelo mar; ainda se recusava a seguir regras, mas já aceitava que perdera o talento. Sentia-se ridículo e humilhado e por isso adquiriu o hábito de olhar sempre para baixo, como que escondendo a vergonha da platéia alheia. Levantou-se da cama, ouviu ao longe o suave barulho de chuva e colocou primeiro o casaco e depois em um único gesto fechou o zíper e abriu a porta. Pegou todos os materiais de pesca e dirigiu-se descalço ao mangue. Desprendeu as cordas, ajeitou o mastro e passou a remar. Era terça-feira e ele havia acordado um pouco mais cedo do que de costume; o céu esboçava uma claridade preguiçosa e nem mesmo o sol levantara-se no horizonte. Mexia-se agressivamente, batendo os remos na superfície de uma forma desengonçada e assustadora. Não olhou nem um minuto para trás e dirigiu-se para oeste, onde os albatrozes esperavam pacientes suas refeições. Mantendo-se sempre próximo ao mangue, o velho esboçava no rosto um sorriso febril e sua cicatriz pulava faminta para fora do peito. Quando chegou ao seu destino, lentamente abandonou os remos dentro do barco, preparou as iscas e as redes e esperou. Esperou por um milagre, pelo maior peixe de todos os tempos, quem sabe até mesmo uma baleia gigante, embora ele soubesse que baleias não viviam em represas; esperou inquieto, não soltando nenhum segundo da corda; o pobre velho olhava para o fundo das águas que naquele horário eram turvas e misteriosas, não deixando clara nem mesmo a menor movimentação animal. Respirando espaçadamente, o velhinho manteve sua posição de vigília.
 Algumas horas passaram sem que nem mesmo a água tivesse notado a menor mudança no barco. Os ventos já haviam mudado de direção, o sol já queimava o braço exposto do homem e nada. Foi quando de repente, algo quase que imperceptível moveu-se na superfície; milhares de peixes agitaram-se, movendo freneticamente a água, e depois tudo se tornou calado, por alguns segundos nada nem ninguém se mexia. O velho deu uma última olhada na represa, antes de ser levado por um forte puxão para dentro d'água. Um peixe colossal, imenso, virou o barco e de repente todas as iscas boiavam na superfície longe do alcance do velho agitado. A água suja da represa já o sufocava e ele podia sentir seu corpo sendo levado cada vez mais fundo, mais para os confins do abismo. Sentiu sua pele da perna esquerda ser violentamente arrancada e deglutida e antes de morrer sentiu um pleno prazer por ter pescado o maior peixe de sua vida. Morreu ali mesmo, na boca do monstro com um sorriso simpático e satisfeito de quem teve sua missão cumprida. 

domingo, 10 de abril de 2011

ASF (poesia)

Bem, não preciso nem dizer da onde me veio a inspiração do poema, o título já é meio autoexplicativo. Espero que gostem e como prometido mais um poema dos meus domingos de insônia assistindo ao fantástico! XD




O porta retrato


Os olhos negros, afogueados
Contorcidos em rebentina
Assolavam meu corpo em labareda
Efervescência

A moldura amarelada
Jovem como éramos ambos
Branda como fora a idade
Corroída

O tempo passado
Segredos até então esquecidos
O amor como embaraço fluído
Congelado

As mãos rigorosas unidas
Braços pendidos ao ventre
Idade agora perdida
Ilusão

Unidos contentes no começo da estrada
Somente sorrisos e versos perpetuados na lente
Apenas neblina e árvores assolando o asfalto
Inexistentes

A silhueta dos corpos submersos
Emersos do desejo insone
Da paixão que precedera a estiagem
Naufragados

A clareza dos gestos apaixonados
Da vida que ainda existira em nós
Dos dedos protegidos pela aliança
Despidos

Tudo que fôramos para além do agora
O que éramos ali momentaneamente
Aliados, belíssimos, contentes
Perpetuados

Os olhos então lentamente desbotados
O amor tornado tão fosco
O vidro já quebrado
Irreparáveis

Mas o casal sorridente enclausurado naquela moldura
A vida esquecida ao longo da estrada
Existirá para sempre no porta retrato
Mais viva que nossa lembrança
Mais etérea que essa breve existência

quarta-feira, 6 de abril de 2011

VSP - me inspirando em Bob Marley

Apesar de Bob Marley ser músico, concordo com muitos de seus 'sound bites', e gostaria de compartilhar meu pensamento em relação a um deles... Espero que gostem! :)

"A vida é curta, então quebre as regras, perdoe rapidamente, beije lentamente, ame de verdade e ria descontroladamente"

Bob Marley tem toda a razão. A vida é bela. Use-a, faça bom proveito, viva cada segundo ao máximo.
Faça o que seu coração te manda fazer, não lhe fará mal. Pois com cada derrota se aprende algo, com cada derrota há uma vitória.
Não crie expectativas, não peça para se decepcionar. As coisas nunca são o que aparentam ser, costumam ser piores. Com muita sorte, são melhores e nos surpreendem. Mas para toda regra há uma exceção e esta é uma delas. E a sensação de ser surpreendido por algo que não se esperava é simplesmente uma das melhores que existe; não troco isso por nada.
Não espere nada de ninguém, espere sempre o pior, imagine o pior, porém sem chegar a ser pessimista. Assim com certeza você se surpreenderá, em todas as inúmeras vezes que hão de existir.
Não crie conflitos. Evite-os sempre que possível. Tenha opinião própria, mas aceite a dos outros. Ouça, reflita, e às vezes descubra que a opinião alheia é tão relevante quanto a sua.
Quando o sangue lhe vier à cabeça, respire fundo e se questione se sua vida mudará para melhor se você abrir a boca. A resposta, pode ter certeza, na maioria das vezes será não. Então conforme-se. Nem tudo funciona do jeito certo e do modo que desejamos. Devemos sim lutar pelos nossos direitos, defender nossos diferentes pontos de vista, porém não devemos nos esquecer que nada é perfeito. Algumas coisas conseguimos, depois de muita persistência, mudar, porém outras não. E nessas horas é que devemos nos conformar, senão não seguimos adiante e ficamos presos ao passado, sem viver o presente, o aqui e o agora.
A vida, assim como Bob afirma, é curta, passa em um piscar de olhos. Portanto devemos curtir cada dia, cada hora, cada minuto e cada segundo, já que na vida a única certeza que temos é a morte.
Um dos meus lemas é "paz e amor", que sigo à toda risca, junto com uma boa música. E "nunca diga nunca" é meu outro lema. Afinal, nunca se sabe o que vem pela frente.

ASF (crônicas)

Como tinha prometido, toda quarta posto uma crônica nova de um assunto qualquer. Dessa vez o tema é um pouco mais romântico, só para vocês não acharem que eu sou tão 'nietzschiana' assim. Acho que para escrever esse texto me baseei nos meus passeios na praça aqui perto de casa e das vezes em que ficava observando o movimento no térreo dos prédios. Descobri que tinha um casal de crianças que sem dúvida experimentavam os primeiros resquícios de paixão e decidi escrever sobre isso. Espero que gostem!


Primeiro Amor

Marcos era uma criança fofa de olhos claros, tinha os cabelos cor-de-mel e a pele branca como as nuvens. Gostava muito do seu gato Lumier e de montar castelos de areia nos fundos do playground. Era um menino brincalhão e animado, talvez por isso sua mãe dissesse inúmeras vezes que ele era hiperativo e o pequeno se perguntava se isso era mesmo uma palavra só. Gostava tanto da palavra imensa, a maior que conhecia, que pegou a mania de dizer “hiperativo” para as outras crianças do prédio, para todas as babás e para o gato, como se aquilo fosse uma grande conquista e um super-poder exclusivo do garoto. Era muito bonito, o típico menino que as mulheres reconhecem como um futuro galã; nunca achara ninguém mais bonita que sua mãe com os mesmos olhos claros dele e o corpo fino e marmóreo das artistas de televisão.  
Marcos devia ter seus sete anos quando conheceu Luiza pela primeira vez. Luiza já era mais moça, talvez um ou dois anos mais velha que o menino. Mas o que são dois anos, quando se é tão pequeno. Deve ser mesmo muito tempo! A garota era morena, de cabelos longos e infinitamente cacheados, olhos escuros e pele da cor do sol. Chegara ao prédio havia duas semanas e já causara um enorme reboliço entre os menores. Tinha aquele jeito meigo de menina moça e os olhos tão poderosos que paralisavam mesmo os mais velhos. Gostava mesmo era do balanço e tinha a babá como confidente e o hamster como fiel companheiro. Era muito tímida e dificilmente aceitava brincar com os outros meninos, e mesmo quando o fazia, encolhia-se nos cantos de tal forma que a babá tinha que buscá-la e acudi-la da convivência masculina.
Mas desde o momento em que a vira, Marcos não compreendera o que a pequena lhe causara. Um tipo de calor percorria-lhe todo o corpo e ficava preso na garganta, como uma bola invisível que insiste em nos tirar o fôlego; seus dedos ficavam repentinamente abobados e o ato de construir um simples castelo de areia passava a requerer um esforço sobre-humano; seus olhos de repente ficavam trêmulos e perdidos, e ele sem saber bem se a olhava no rosto ou admirava o vazio, apenas para fingir com desdém que não a reparava. Mas como ela era delicada. Vez ou outra, Marcos a seguia secretamente até o jardim, quando a babá não estava mais por perto e Luiza segurava apenas o hamster no colo, arrancando as folhas da enorme macieira para alimentar o pequeno. Seus gestos eram tão adocicados e gostosos que já eram por si só um alimento para o bichinho e um deleite para os olhos agitados de Marcos.
Luiza também gostava do garoto, achava ele muito novo, mas ao mesmo tempo bem mais maduro que os outros meninos da sua idade, que não tinham a menor categoria quando lhe dirigiam a palavra. Marcos era na verdade misterioso e desajeitado e tão bonito quanto os namorados de suas Barbies. Ela achava linda a forma como ele erguia incansavelmente seus castelos de areia, mesmo quando os ventos ou as chuvas insistiam em derrubá-los.  Adorava também o frio que sentia em todo o corpo e o orgulho que lhe invadia os movimentos quando ele a olhava com ternura. E como uma garota difícil, arrogante, a pequena desviava a face e espiava com as pontas dos olhos o rostinho fino do menino que silenciosamente a admirava. Vez ou outra secretamente ela o espreitava da janela de seu apartamento, esperando que ele a reparasse e começasse a recitar milhares de poemas românticos, pois era isso que os príncipes faziam quando queriam conquistar o coração de uma princesa.
Algum tempo se passou sem que os dois se falassem e permanecessem neste ato quieto de entreolharem-se. Marcos tinha ouvido na televisão que isso era amor platônico, quando a gente ama no mundo das idéias, sem conhecer de verdade a musa amada ou quando a paixão por alguém que mal conhecemos é extremamente forte e não correspondida. A segunda perspectiva era muito triste e por isso Marcos a ignorava. O menino havia aprendido agora uma nova palavra: amor, e se perguntava se esse seria também algum tipo de super-poder e achava engraçado que um conglomerado de letras tão pequeno pudesse descrever um sentimento tão grande. E então todo orgulhoso do novo conhecimento, Marcos pegou a mania de dizer para as outras crianças que tinha o "amor", que era o maior de todos os poderes. Quando perguntado o que este seria, respondia ruborizado que era aquela sensação de verão dentro de si e contentamento inexplicável quando perto de Luiza.
A menina também o amava e, por ser mais velha, sabia que o sentimento estava mais para demasiado humano do que para super-poder.  Sabia também que o amor mais demandava forças do que as trazia; e que mesmo o maior dos poderes enfraquecia-se perante o grandioso amor.  Quando apaixonada sentia-se estranhamente adulta e animada, mas tinha medo que os outros percebessem e então a enchessem de perguntas estúpidas e vagas sobre o menino.
Marcos tinha visto um filme há pouco tempo e decidiu levantar-se quando viu Luiza sentada aquela tarde no balanço do playground.
Luiza lera uma novela nos últimos dias e decidiu parar o balanço quando viu Marcos se aproximar.
O garoto apressou-se na direção da belíssima amada e esforçou-se para encará-la nos olhos negros, tão brilhantemente sedutores que por um minuto sentiu de novo aquela bola invisível travar-lhe a goela.
A garota desceu do balanço, tão inquietamente ansiosa que teve medo que ele percebesse a ridícula alteração de seu comportamento.       
Marcos encarou Luiza de perto.
Luiza contemplou Marcos encabulada.
O menino delicadamente tocou-lhe as bochechas.
A menina suavemente apoiou-se em seus ombros.
Os lábios de ambos uniram-se por uns poucos segundos e nem chegaram a encostar a língua. Não tinham essa malícia.
Marcos sentiu-se o mais poderoso dos heróis.
Luiza sentiu-se incrivelmente adulta.
Ambos sentiram pela primeira vez o amor.
   

domingo, 3 de abril de 2011

ASF (poesia)


Bem, mais um poema das minhas noites solitárias de domingo, não sei dizer bem o que me inspirou, mas creio que foi o livro "Lolita" (não contem isso em casa, hein). Espero que gostem! XD





  
Mãos Vazias


Você me diz quantas vezes prometeram-te tantas coisas
E como voltaste todas de mãos tão vazias

Na vaga de tuas coxas resta ainda um cheiro
Resquício da poesia mal acabada
Do fomento de delírios tão desconexos  

Você me diz de pernas escancaradas que o amor não existe
Que o alento não vale mais que o desafeto
Que o carinho não incita mais que o álcool

Na complacência de tua cômoda incendiada
Restam ainda contrações descompassadas
Pesa o fastio de teus divertimentos

Você me encerra com os lábios enfadados
Desconcerta o compasso de todos meus nervos
Diz que o prazer antecede a pena
E que a pena entorpece o amor

No silêncio de tua anca desregulada
Desatina a volúpia ainda ardente
Força os músculos o desejo incipiente

Você então me encara com aconchego
Com um apego que a alma turva ainda desconhece
Diz tantas vezes que para sempre me ama
Pende os quadris tão cansados para meu lado

Na frieza da madrugada casta então me despeço
Abandono em teu leito a tequila e uns poucos trocados
Prometo-te tão poucas coisas
E fecho a porta como ti, de mãos tão vazias