A caminhada
A noite derrubava uma brisa fria na encosta e insistia em levantar milhares de vezes a base de linho de sua camisa. Um pouco encabulado você seguia em frente, sem se importar com o roçar dos pés na areia ou até mesmo com o arrepiar dos braços nus ao vento. Fizera sempre aquele percurso à beira-mar por força do hábito ou até mesmo da comodidade. Suas pernas conheciam o caminho e durante dez anos ele não mudara. As mesmas ondas curtas e fracas quebrando nas falésias, as mesmas conchas descoloridas boiando na maré e o mesmo silêncio inquieto do oceano. Você amava aquela praia e não porque tivesse qualquer tipo de casebre ou taberna que pudesse lhe abrigar nas horas de desgosto; na verdade você tinha uma certa aversão ao álcool, pois ele tornava todos os movimentos mais moles e todas as palavras mais vazias. Uma vez ou outra, quando queria atrair uma mulher, dava-se ao luxo de uma dose de rum ou licor, pois sabia que todo homem é mais atraente quando tolo. Mas na realidade você não era nada atraente. Seus olhos indevidamente espaçados, a boca enrugada e torta abaixo do nariz, os dentes podres e pequenos entre os lábios, vez ou outra chegavam a machucar-lhe a língua e até mesmo sua sobrancelha parecia retrair-se para dentro da pele. Comparado a qualquer outro homem, sua aparência era grotesca e o cabelo anoso e suado dava um ar de selvageria a toda a obra. Você não passava de um homúnculo hostil e retraído, um daqueles seres que não tem mulheres e vivem para a imoralidade da noite.
Mas então porque seguira tão quieto durante dez anos aquele mesmo caminho? Sem casa, pousada ou família não fazia sentido você ter um destino. E de longe eu te observava. Na verdade, eu gostava da forma corcunda e desajeitada como tentava incansavelmente ajeitar a camisa e os bolsos, do modo relutante como desejava simplesmente a inexistência. Encolhendo-se toda vez que a água tocava-lhe os pés frios, você tinha a estranha mania de desviar do desenho das ondas e de circundar todo o obstáculo em seu caminho. Era engraçada, e ao mesmo tempo hostil, a forma como seguia metodicamente os seus hábitos como um rio segue fiel o seu curso. O melhor horário para observar-lhe era por volta das onze, quando o reflexo da lua no oceano denunciava os contornos esdrúxulos de seu rosto e eu podia ver claramente aquela expressão negra em seus olhos. Como você era divertido!
Se fosse capaz de reparar-me, você talvez achasse que eu o amasse ou que no mínimo alimentava uma secreta obsessão por todo aquele seu mistério. Mas isso não era verdade. Na realidade eu não podia evitar de te ver e em todo aquele mundo era eu a única que te percebia. A anos eu te seguia e tentava achar alguma forma plausível de lhe levar comigo: uma febre, um infarto fulminante ou quem sabe até mesmo uma crise asmática. Mas toda vez que levantava o meu negro véu em sua direção, meus braços ricocheteavam, enfraqueciam-se e tudo que me restava era um sentimento duro, estúpido e vertiginoso: a misericórdia. Por algum motivo não podia levar-lhe comigo e isso me intrigava e no fundo até que divertia a minha alma imperene.
Você, tão pequeno e insignificante, tão medonho e fraco, desafiava a onipotência da morte, de meu vistoso machado. E eu ria, gargalhava e regogizava, pois sabia que você estava condenado a uma eternidade muito maior e mais penosa que a minha: a vida. E quem sabe no final de todos os seus percursos, não acabasse por desejar o meu machado contra a sua goela ao invés da certeza de uma nova caminhada.
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