quarta-feira, 27 de abril de 2011

ASF (crônicas)

Bem, hoje eu estou postando bem mais cedo do que de costume, mas o problema é que eu ainda tenho que escrever meu texto de filosofia do zero e vai saber que horas eu vou conseguir acabar essa redação! Anyway, o texto de hoje foi escrito faz um tempo, depois que eu voltei de um longo passeio no Ipiranga, tinha um desses conventos, que era também meio que uma escola católica, muito bonita por sinal, e vocês sabem como esses lugares sombrios inspiram meus neurônios! O resultado vocês vêem ai embaixo...Espero que gostem!
Beijos do gordo pra vocês!

Egoísmo

Ela era uma menina estreita e retraída, ele um homem tímido e carrancudo. Ela tinha no máximo quinze anos e ele no mínimo seus quarenta. Que casal estranho nós formaríamos! Alberto era professor de matemática há mais de dez anos daquela mísera escola que ocupava toda a esquina da Rua Brooklin. O bairro era pequeno, não se estendia a mais de cinco quarteirões além dali. A verdade é que o Colégio Nossa Senhora da Penha era um desses casebres antigos, abandonados por alguma família de imigrantes lusos que foi tentar a sorte no Sul do país. O terreno era bem anoso e ainda cheirava a ovo e óleo. Quando a Freira Maria comprou o espaço não sabia que seria tão difícil administrar uma escola daquele porte, a vida no convento era realmente mais fácil. Tinha apenas de lavar suas roupas, que não passavam de alguns mantos negros acobreados; recolher- se à cama antes das dez e carregar consigo um terço e algumas poucas rezas que repetia sempre às quatro da tarde para Jesus. Desistiu de tudo aquilo não porque perdera a fé, isso nunca. Mas por que achava que pouco valia para a sociedade toda aquela vida arcaica de devoção, ninguém jamais faria bom uso do remanso de suas orações. E foi por isso que saiu do convento e fundou o comedido colégio da Rua Brooklin.
 Alberto sabia de toda essa história, mas não ligava, fingiu ao longo daqueles dez anos que era católico, porque sabia que sem mestrado ninguém jamais lhe ofereceria um salário daqueles. Ele se acostumara com a religião e depois de uns dois anos havia decorado o nome de uns três santos, mas não sabia bem para que serviam. Aprendeu a usar a palavra “Senhor” no lugar das vírgulas e a terminar as frases sempre com “Amém”. Ele até que se fazia de bom homem devoto. Alberto, na realidade, fora anglicano desde criança, mas desistira da crença quando descobriu que o Henrique XVIII havia criado a religião apenas para desposar Ana Bolena. Como ele odiava o egoísmo. Logo depois de conseguir o emprego casou-se com uma ex-aluna, daquelas que se encolhiam no fundo da classe e tinham uma rasa familiaridade com os números, ela não era linda, mas tinha um sorriso irreverente. As outras freiras da escola não gostavam nada daquele casamento e adquiriram o corriqueiro costume de virar os olhos quando reparavam em sua aliança. Mas ele não ligava, e, provavelmente, jamais ligaria, pois no fundo, no fundo ele não acreditava em pecados. Mas nos milagres. Ah, nesses ele acreditava!
 A menina aproximou-se da mesa do professor, com aquele mesmo doce sorriso irreverente que o fizera se apaixonar por sua esposa. Alberto não conseguia evitar repousar os seus olhos nos quadris da pequena. O movimento era assim, quente, espalhafatoso, herético. A forma como sua anca se jogava voluntariamente ora para esquerda, ora para direita, o hipnotizava e dava um ar dramaturgo para cada um de seus movimentos. A menina aproximou-se um pouco mais, puxou a cadeira e deitou os quadris. Ufa, ele não teria mais de controlar seus instintos. Olhou-a nos olhos, como ela era egoísta! Sentada ali do seu lado, a garota lhe fazia perguntas tolas e exigia algum tipo estúpido de aumento na nota e ajuda para concluir a escola sem repetir de ano. Ele fingia que a ouvia da mesma forma que fingira ser crente. Os olhinhos morenos fitavam-no, chegavam a ser intransponíveis, mas como ela era egoísta. O hálito virgem, santíssimo da moça, agora chegara a sua narina e ele não podia evitar naufragar em seu cheiro; sentir a aliança apertar-lhe o dedo de uma forma incômoda. Eu tenho mais é que me livrar desse empecilho, e se ela acreditar em pecados, então jamais aceitará o adultério!
 E então o hálito da criança já o invadira, passando pelas fossas nasais seu aroma ia direto para o coração, depois para as artérias, para o fígado e finalmente se abstinha na pele. E dali não saia, tal como pó em madeira, impregnava seu pêlo de indecência e eretismo. E a menina não saía, por que não se afastava, por que insistia em lhe falar de tão perto, em se debruçar imprudente no colo da mesa? E ela era tão egoísta. Eu odeio o egoísmo, odeio. A forma imoderada como clamava por ajuda, o exagero dos gestos adolescentes, a inquietação dos lábios de menina... Tudo isso o torturava. Não, pior... Tornava-o crédulo.   
 Ele, que nunca acreditara no pecado, agora o sentia em suas veias, voltando para o fundo do coração para depois lhe banhar toda a alma. Afastou-se da moça, e empurrou em um único impulso a mesa de professor. Puxou a pequena pelos pulsos, como se fosse criminosa, e deitou a palma de sua mão no rosto da criança. Tocou-lhe os lábios, o pescoço, os dentes, até poder, com a língua, encostar-lhe no céu da boca. Como ele era egoísta. Mas a pequena gostava! Gostava não do egoísmo, mas do pecado.

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