O vento da noite
Uma moça estava sentada no coração da calçada, era noite escura, tão escura quanto o pranto. Ela sorria, sorria entre lágrimas claras, tão imprevisíveis quanto a noite. Acolhida no manto de escuridão viçosa, a linda moça o esperava. Os cabelos, assim como as palavras, haviam perdido a cor com o tempo e, assim como o toque, arrepiavam-se com a noite. E ela o esperava. Espreitava estática a esquina vazia, os fios de fuligem que manchavam o horizonte de concreto. Ela o esperava há anos, sempre na mesma esquina gasta e obsoleta, sempre com os mesmos olhos negros de ferrugem.
Depois da última carta, Umberto sumira. Dissera que iria para a guerra, mas que dentro de dois anos estaria ali, dentro da casa número onze que dava com a esquina escura. E ela manteve sua promessa, disse que o esperaria e que dentro de dois anos estaria pregada na calçada, ingênua, jovem e pronta para ele. E era por isso que sempre se via a linda moça chorando na frente da casa onze. Vestida de preto, lábios quebradiços como asfalto e maquiagem borrada como a noite, ela o esperava. Alguns diziam que era louca, outros que era bela, mas a verdade é que, para ele, ela era única.
E ele a via. Via sua silhueta jovem transbordar no cimento, sentia seu gosto antigo adocicado de tabaco e muito pior, ouvia os seus suplícios esfriarem a esquina. Ter de estar ali sem a possuir era uma dor, uma tormenta que nem mesmo a morte conhecia. Mas ele conhecia a morte. Oh, se conhecia! E a morte era fria, mais fria que a sua ausência para a jovem, e talvez por isso ela tremia. Sentia aquele vento gelado de ausência penetrar-lhe as dobras do vestido, acariciar-lhe o negro decote aberto, e ela deixava. Deixava que o vento invadisse a renda e apalpasse sua alma, pois sabia que naquela noite escura quem lhe tocava era Umberto.
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