Como tinha prometido, toda quarta posto uma crônica nova de um assunto qualquer. Dessa vez o tema é um pouco mais romântico, só para vocês não acharem que eu sou tão 'nietzschiana' assim. Acho que para escrever esse texto me baseei nos meus passeios na praça aqui perto de casa e das vezes em que ficava observando o movimento no térreo dos prédios. Descobri que tinha um casal de crianças que sem dúvida experimentavam os primeiros resquícios de paixão e decidi escrever sobre isso. Espero que gostem!
Primeiro Amor
Marcos era uma criança fofa de olhos claros, tinha os cabelos cor-de-mel e a pele branca como as nuvens. Gostava muito do seu gato Lumier e de montar castelos de areia nos fundos do playground. Era um menino brincalhão e animado, talvez por isso sua mãe dissesse inúmeras vezes que ele era hiperativo e o pequeno se perguntava se isso era mesmo uma palavra só. Gostava tanto da palavra imensa, a maior que conhecia, que pegou a mania de dizer “hiperativo” para as outras crianças do prédio, para todas as babás e para o gato, como se aquilo fosse uma grande conquista e um super-poder exclusivo do garoto. Era muito bonito, o típico menino que as mulheres reconhecem como um futuro galã; nunca achara ninguém mais bonita que sua mãe com os mesmos olhos claros dele e o corpo fino e marmóreo das artistas de televisão.
Marcos devia ter seus sete anos quando conheceu Luiza pela primeira vez. Luiza já era mais moça, talvez um ou dois anos mais velha que o menino. Mas o que são dois anos, quando se é tão pequeno. Deve ser mesmo muito tempo! A garota era morena, de cabelos longos e infinitamente cacheados, olhos escuros e pele da cor do sol. Chegara ao prédio havia duas semanas e já causara um enorme reboliço entre os menores. Tinha aquele jeito meigo de menina moça e os olhos tão poderosos que paralisavam mesmo os mais velhos. Gostava mesmo era do balanço e tinha a babá como confidente e o hamster como fiel companheiro. Era muito tímida e dificilmente aceitava brincar com os outros meninos, e mesmo quando o fazia, encolhia-se nos cantos de tal forma que a babá tinha que buscá-la e acudi-la da convivência masculina.
Mas desde o momento em que a vira, Marcos não compreendera o que a pequena lhe causara. Um tipo de calor percorria-lhe todo o corpo e ficava preso na garganta, como uma bola invisível que insiste em nos tirar o fôlego; seus dedos ficavam repentinamente abobados e o ato de construir um simples castelo de areia passava a requerer um esforço sobre-humano; seus olhos de repente ficavam trêmulos e perdidos, e ele sem saber bem se a olhava no rosto ou admirava o vazio, apenas para fingir com desdém que não a reparava. Mas como ela era delicada. Vez ou outra, Marcos a seguia secretamente até o jardim, quando a babá não estava mais por perto e Luiza segurava apenas o hamster no colo, arrancando as folhas da enorme macieira para alimentar o pequeno. Seus gestos eram tão adocicados e gostosos que já eram por si só um alimento para o bichinho e um deleite para os olhos agitados de Marcos.
Luiza também gostava do garoto, achava ele muito novo, mas ao mesmo tempo bem mais maduro que os outros meninos da sua idade, que não tinham a menor categoria quando lhe dirigiam a palavra. Marcos era na verdade misterioso e desajeitado e tão bonito quanto os namorados de suas Barbies. Ela achava linda a forma como ele erguia incansavelmente seus castelos de areia, mesmo quando os ventos ou as chuvas insistiam em derrubá-los. Adorava também o frio que sentia em todo o corpo e o orgulho que lhe invadia os movimentos quando ele a olhava com ternura. E como uma garota difícil, arrogante, a pequena desviava a face e espiava com as pontas dos olhos o rostinho fino do menino que silenciosamente a admirava. Vez ou outra secretamente ela o espreitava da janela de seu apartamento, esperando que ele a reparasse e começasse a recitar milhares de poemas românticos, pois era isso que os príncipes faziam quando queriam conquistar o coração de uma princesa.
Algum tempo se passou sem que os dois se falassem e permanecessem neste ato quieto de entreolharem-se. Marcos tinha ouvido na televisão que isso era amor platônico, quando a gente ama no mundo das idéias, sem conhecer de verdade a musa amada ou quando a paixão por alguém que mal conhecemos é extremamente forte e não correspondida. A segunda perspectiva era muito triste e por isso Marcos a ignorava. O menino havia aprendido agora uma nova palavra: amor, e se perguntava se esse seria também algum tipo de super-poder e achava engraçado que um conglomerado de letras tão pequeno pudesse descrever um sentimento tão grande. E então todo orgulhoso do novo conhecimento, Marcos pegou a mania de dizer para as outras crianças que tinha o "amor", que era o maior de todos os poderes. Quando perguntado o que este seria, respondia ruborizado que era aquela sensação de verão dentro de si e contentamento inexplicável quando perto de Luiza.
A menina também o amava e, por ser mais velha, sabia que o sentimento estava mais para demasiado humano do que para super-poder. Sabia também que o amor mais demandava forças do que as trazia; e que mesmo o maior dos poderes enfraquecia-se perante o grandioso amor. Quando apaixonada sentia-se estranhamente adulta e animada, mas tinha medo que os outros percebessem e então a enchessem de perguntas estúpidas e vagas sobre o menino.
Marcos tinha visto um filme há pouco tempo e decidiu levantar-se quando viu Luiza sentada aquela tarde no balanço do playground.
Luiza lera uma novela nos últimos dias e decidiu parar o balanço quando viu Marcos se aproximar.
O garoto apressou-se na direção da belíssima amada e esforçou-se para encará-la nos olhos negros, tão brilhantemente sedutores que por um minuto sentiu de novo aquela bola invisível travar-lhe a goela.
A garota desceu do balanço, tão inquietamente ansiosa que teve medo que ele percebesse a ridícula alteração de seu comportamento.
Marcos encarou Luiza de perto.
Luiza contemplou Marcos encabulada.
O menino delicadamente tocou-lhe as bochechas.
A menina suavemente apoiou-se em seus ombros.
Os lábios de ambos uniram-se por uns poucos segundos e nem chegaram a encostar a língua. Não tinham essa malícia.
Marcos sentiu-se o mais poderoso dos heróis.
Luiza sentiu-se incrivelmente adulta.
Ambos sentiram pela primeira vez o amor.
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