"Beijos do gordo" gente!
O velho pescador do mangue
O velho pescador ancorou o pequeno bote nos pés do manguezal e levou consigo as redes, as iscas e o mastro. Saiu silencioso, roçando os dedos na barba longa, como se puxasse uma palavra esdrúxula do fundo de sua boca. Já era um pouco tarde, por volta das seis e não era comum ele sair de um dia ensolarado com as mãos vazias, sem no mínimo um grupo de sardinhas. Que miséria! Talvez ele tivesse perdido o dom, fazia tempo que o velho não seguia as regras básicas da pesca: buscar lugares onde a concentração de albatrozes era alta e, de preferência, próximos à vegetação mais densa do mangue. Mas a verdade é que ele estava cansado de regras estúpidas. Era um senhor inteligente e observador e com seus mais de quarenta anos de experiência, sentia que qualquer tipo de regra infame era desnecessária, afinal a vida já lhe havia ensinado muitas delas.
A constante rotina em baixo do sol deixara-lhe algumas marcas permanentes e grossas próximas ao cenho e principalmente no antebraço; tinha uma cicatriz chamativa no alto do peito que havia adquirido durante uma tempestade, quando tentava agarrar-se ao barco, e o velho gostava de exibi-la orgulhoso como se fosse uma ferida de guerra ou uma tatuagem tribal. Era um sujeito de resto simpático e mesmo as mais gritantes queimaduras não conseguiam afetar a amabilidade de seu rosto, com seus sorrisos sempre largos e gestos agradáveis. Tinha em toda a pequena cidade um grupo de amigos, que o tratavam mais como mestre do que como companheiro, não fizera ao longo dos anos nenhum parceiro de ofício, pois odiava a opinião de segundos e principalmente a perspectiva de concorrência. Seguia todos os dias seu caminho para casa antes do anoitecer e voltava para o centro da cidade à noite para ter o seu pedaço de imoralidade. Sua esposa morrera de câncer fazia dez anos e depois dela ele decidiu-se por esquecer o amor. Chegou a ler alguns romances, desses de banca mesmo, mas logo desistiu, pois tinha dificuldade com as letras. Era engraçado que todas as vezes que se propunha a ler, até mesmo as manchetes mais simples, deparava-se com uma infinidade de símbolos e pontuações, que lentamente assumiam formas, corpos e sentidos, que só muito mais tarde conseguia compreender.
Este sujeito meio analfabeto e bondoso despertava em todos uma silenciosa misericórdia, como um cachorro sarnento e solitário que nos clama timidamente por atenção e arranha pacientemente nossa perna até obter qualquer pedaço velho de carne. O velhinho causava até nas mais vívidas prostitutas uma sensação de caridade, de filantropismo. Era conhecido em todos os bares e só abandonava o balcão quando já era até mesmo difícil permanecer em pé. Por volta das quatro da madrugada já se encontrava na cama, dormindo um sono pesado sem sonhos.
Isso se seguiu por mais de um mês, durante o qual ele sempre voltava de mãos vazias para casa, apenas com suas redes, iscas e mastros pesadamente sustentados pelas axilas. O velho já estava decepcionado e até passou a alimentar certo ódio pelo mar; ainda se recusava a seguir regras, mas já aceitava que perdera o talento. Sentia-se ridículo e humilhado e por isso adquiriu o hábito de olhar sempre para baixo, como que escondendo a vergonha da platéia alheia. Levantou-se da cama, ouviu ao longe o suave barulho de chuva e colocou primeiro o casaco e depois em um único gesto fechou o zíper e abriu a porta. Pegou todos os materiais de pesca e dirigiu-se descalço ao mangue. Desprendeu as cordas, ajeitou o mastro e passou a remar. Era terça-feira e ele havia acordado um pouco mais cedo do que de costume; o céu esboçava uma claridade preguiçosa e nem mesmo o sol levantara-se no horizonte. Mexia-se agressivamente, batendo os remos na superfície de uma forma desengonçada e assustadora. Não olhou nem um minuto para trás e dirigiu-se para oeste, onde os albatrozes esperavam pacientes suas refeições. Mantendo-se sempre próximo ao mangue, o velho esboçava no rosto um sorriso febril e sua cicatriz pulava faminta para fora do peito. Quando chegou ao seu destino, lentamente abandonou os remos dentro do barco, preparou as iscas e as redes e esperou. Esperou por um milagre, pelo maior peixe de todos os tempos, quem sabe até mesmo uma baleia gigante, embora ele soubesse que baleias não viviam em represas; esperou inquieto, não soltando nenhum segundo da corda; o pobre velho olhava para o fundo das águas que naquele horário eram turvas e misteriosas, não deixando clara nem mesmo a menor movimentação animal. Respirando espaçadamente, o velhinho manteve sua posição de vigília.
Algumas horas passaram sem que nem mesmo a água tivesse notado a menor mudança no barco. Os ventos já haviam mudado de direção, o sol já queimava o braço exposto do homem e nada. Foi quando de repente, algo quase que imperceptível moveu-se na superfície; milhares de peixes agitaram-se, movendo freneticamente a água, e depois tudo se tornou calado, por alguns segundos nada nem ninguém se mexia. O velho deu uma última olhada na represa, antes de ser levado por um forte puxão para dentro d'água. Um peixe colossal, imenso, virou o barco e de repente todas as iscas boiavam na superfície longe do alcance do velho agitado. A água suja da represa já o sufocava e ele podia sentir seu corpo sendo levado cada vez mais fundo, mais para os confins do abismo. Sentiu sua pele da perna esquerda ser violentamente arrancada e deglutida e antes de morrer sentiu um pleno prazer por ter pescado o maior peixe de sua vida. Morreu ali mesmo, na boca do monstro com um sorriso simpático e satisfeito de quem teve sua missão cumprida.
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